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Hypnerotomachia (5)

03/11/2009

Depois de Poliphilo descrever e elogiar as proporções do grande Portal, vai agora perder-se na descrição detalhada da sua composição e dos seus motivos ornamentais, não sem antes voltar a enfatizar a importância do arquitecto.

 

CAPÍTULO V

“Poliphilo descreve as medidas do Portal e demonstra a sua simetria”

 

Poliphilo explica qual deverá ser o papel principal da arquitectura, que é afinal a sua expressa invenção: o estabelecimento harmonioso do corpo sólido de um edifício. Depois de o ter conseguido, o arquitecto vai poder reduzi-lo em múltiplas divisões, tal como o músico estabelece a escala e a unidade  de ritmo antes de a subdividir em pequenas notas. Assim, a primeira regra que o arquitecto deve observar depois da concepção do edifício é o quadrado, que é subdividido até ao menor grau para lhe dar harmonia e consistência, e para que as partes estejam em correspondência com o todo. Esta é a razão, diz Poliphilo, porque o presente portal é tão belo na sua admirável composição e concepção, e porque é tão particularmente elegante, de modo a que nem o seu mais obscuro elemento provocou alguma crítica.

Portal

Poliphilo observa o Portal, com o seu frontão triangular decorado, apoiado num entablamento que apresentava vários ornamentos e representações de cenas da mitologia. Na parte inferior avista dois pares de colunas apoiadas pelas respectivas bases em dois plintos quadrangulares. Estes blocos moldurados estavam decorados com relevos de folhagens mas, no centro, que era de pedra de alabastro transparente, tinha relevos figurativos bem proporcionados.

Tanto estes plintos como os painéis existentes no entablamento estão apenas assinalados na gravura do Portal, sem qualquer outra imagem que  identifique as cenas representadas. Assim, teremos que nos guiar apenas pelas palavras de Poliphilo, que, normalmente, também não refere o nome das possíveis divindades representadas, limitando-se a descrever as figuras em cena. Para assinalar as cenas dos plintos, o autor das gravuras colocou as duas figuras principais dentro de medalhões nos respectivos lados do portal. Ambas as cenas devem referir-se a episódios de Vénus e o seu filho Cupido (Eros), que se encontram com Vulcano (Hefesto grego), e Mercúrio (Hermes), respectivamente no lado direito e esquerdo. Aliás, todo o Portal parece ser dedicado à deusa protectora  de Poliphilo,  à qual ele é devoto e pede que interceda para garantir a união com Polia:  Vénus, a deusa do Amor, e enquanto manifestação da Vénus Urânia, a Vénus Celestial. Num plano simbólico enuncia-se o objectivo de Poliphilo ao atravessar o Portal: a  iniciação nos Mistérios da Vénus Celestial, o Amor Supremo que gera e permeia o Universo. O Portal, através das várias cenas e figuras da mitologia que apresenta, não só representa a porta de entrada num mundo ideal, paradisíaco, habitado por deuses e deusas, ninfas e semi-deuses da antiguidade, polvilhado de monumentos que excedem em riqueza e tamanho até as descrições dos autores clássicos, um mundo perfeito, sem pecado, onde o Amor redentor é omnipresente, como também assinala as várias facetas e sortilégios do Amor, que Poliphilo deverá ultrapassar para chegar ao seu destino, através da representação de alguns episódios da mitologia que têm em comum histórias de Amor. Depois de andar por entre as suas ruínas, descrevendo os fragmentos de glórias passadas, Poliphilo prepara-se para entrar nesse mundo pagão, que fica para além do tempo e da mutabilidade.

No plinto do lado direito observou uma cuidada imagem esculpida de um homem, já na idade madura, com o aspecto rude de um camponês, de barba densa. Estava sentado numa pedra e usava uma pele de cabra. À sua frente, entre as suas ancas, encontrava-se uma bigorna presa num tronco de àrvore, em cima da qual ele forjava atarefadamente um pequeno par de asas flamejantes, batendo com o seu martelo (Vulcano, o deus ferreiro). Próximo dele estava um dama que tinha duas asas a sairem dos seus delicados ombros, e segurava uma criança nua, o seu filho (Vénus Urânia e Cupido). A completar a cena um guerreiro de couraça romana com a cabeça da Medusa, segurando uma lança e com um elmo de crista  ( provável alusão a Marte, o deus amante de Vénus e, segundo algumas interpretações, o pai de Cupido) e um jovem, com poucas vestes, por detrás da cabeça inclinada do ferreiro (um auxiliar da oficina de Vulcano).

Segundo a mitologia, Vénus foi esposa de Vulcano, a quem traíu com Marte, o deus da guerra. Nesta cena é Vulcano, o deus obreiro do Olimpo que forjou inúmeros atributos dos vários deuses e heróis, que é incumbido de forjar as próprias asas de Cupido (que ainda não as tem).  Ao  associar este à imagem de Vénus e de Vulcano,  a cena poderá aludir à representação do Amor enquanto fogo material: o “fogo de Vulcano/Hefesto é o fogo subterrâneo que surge através do vulcão, e é a metáfora para intensos sentimentos de erotismo e sexualidade, contidos no âmago do corpo esperando ser expressos de modo súbito e inesperado. (…) O fogo da forja é uma paixão inexpressa que inspira o trabalho criativo; pode ser um amor não correspondido, o extravasar de uma raiva, a ansiedade de conseguir algo.”

No plinto do lado esquerdo aparecia a figura de um homem nu, em idade viril, de face gentil, sentado num banco quadrangular, e usando botas com asas. A mesma dama também aqui se encontrava, apresentada na sua nudez divina, esculpida tal como no quadro anterior. Agora apresentava o seu filho, já alado, a este homem (provável representação de Mercúrio, o mensageiro dos deuses e símbolo da iniciação nos Mistérios em geral) , para ser instruído, e a criança permanecia atenta enquanto o deus lhe mostrava três setas. A seus pés encontrava-se um caduceu. Também nesta cena aparecia o homem armado usando uma couraça romana (Marte), e uma mulher com um elmo segurando um troféu numa lança (alusão a Minerva/Atena, a deusa da sabedoria, das artes e da guerra) que no topo tinha uma esfera com duas asas, entre as quais figurava uma inscrição: “NADA É ESTÁVEL”.

Toda a cena fora talhada sobre um fundo de pedra de coral, tal como no primeiro plinto, proporcionando a visão dos tons de pele aos corpos esculpidos. 

Esta cena contrapõe a representação do Amor sublime, espiritual, por via de Mercúrio (Hermes), o deus de múltiplas capacidades, da sabedoria e eloquência, o iniciador nos segredos das artes, saberes e técnicas, o condutor das almas, o guia da demanda espiritual, presidindo aos rituais iniciáticos da morte e ressureição, conforme a antiga tradição egípcia (enquanto Hermes-Thot). É ele o instrutor de Cupido (como no quadro de Correggio) por via de Vénus, mas também, segundo algumas versões do mito, o seu pai. A dualidade do Amor é reforçada pela presença das figuras de Marte,  o viril guerreiro que é sempre cego no seu desejo de impor a vontade pessoal desconsiderando a instância imortal do amor celestial e assim desperta o apelo pela matéria e os prazeres terrenos encarnados na Vénus Pandêmia; Minerva (Atena) por outro lado, luta pela supremacia da lúcida clareza mental acima da instintiva libido física, defendendo a Vénus Celestial que encarna o  desejo da alma em alcançar prazeres celestiais.

Cabe a Cupido despertar nos mortais o Amor da Vénus Celestial. Mas como lembra Minerva, se a violência só pode ser aplacada com o Amor, também esse Amor não é seguro nem garantido: as asas de Cupido assinalam que ele é fugaz e instável…

Sobre cada um destes plintos assentavam duas colunas com capitéis da ordem coríntia em pórfiro (um mármore precioso, de cor vermelho escuro salpicado de manchas) brilhantes e polidas. Eram estriadas na maior parte da sua superfície, com caneluras, e parece que tal se devia ao facto, diz Poliphilo, de ser um templo dedicado a uma deusa. É que as estrias representavam as dobras do vestuário feminino, enquanto que os capitéis colocados por cima com as suas pequenas volutas suspensas, indicavam o cabelo entrançado das mulheres e os seus ornamentos. As Cariátides, explica Poliphilo, que têm uma cabeça de mulher como capitel, foram esculpidas para o templo de um povo rebelde depois da sua submissão, por causa da sua inconstância que é uma característica feminina, e que assim seria para sempre lembrada através desse tipo de colunas.

A soleira da entrada do Portal era feita de uma imensa pedra esverdeada, com manchas de branco, preto e cinza. A ladear a soleira duas colunas. Acima formava-se um arco semicircular, cuja pedra angular era digna de admiração pelo seu subtil desenho e elegante acabamento. Aqui Poliphilo avistou uma águia , esculpida de uma pedra preta, com as suas asas abertas  agarrando cuidadosamente pelas suas roupas um menino, nu da cintura para baixo, e com ar assustado, talhado em ágata ou ónix.

A representação desta cena poderá aludir ao episódio do Rapto de Ganimedes : este era um jovem príncipe de Tróia por quem Zeus se apaixonou e raptou, transformado em águia. Ganimedes foi levado para o Olimpo e passou a servir o néctar aos deuses, a bebida que oferece a imortalidade, símbolo da sabedoria, iluminação espiritual e também da cura e renovação da vida. Assinala-se assim, na entrada do Portal, a simbologia da iniciação espiritual.

O tecto da passagem sob o arco era talhado em pequenos quadrados, excelentemente moldados, no meio dos quais se alinhavam rosetas gravadas em alto relevo.

No meio das pedras triangulares formadas pelo arco figurava o busto de uma Vitória (Niké grega) cujo troféu em pedra preta dava-lhe um aspecto mais real.

Vitória não era a deusa criadora da vitória, mas sim a responsável por entregá-la ao vitorioso. Normalmente era representada com outros deuses portadores da vitória, principalmente Zeus e Atena, numa forma alada, levando atributos como um ramo de palmeira ou uma guirlanda, e identificada com a deusa Vitória dos romanos. Também Atena é muitas vezes representada segurando numa das mãos uma pequena imagem da deusa da vitória.  Esfige, a sua mãe, era a deusa dos juramentos solenes inquebráveis e, assim, a mitologia mostrava desde então que para se ter a vitória, é necessário promover um juramento solene inquebrável, um contrato consigo mesmo. A mensagem mitológica diz-nos assim que, para se obter o sucesso precisamos de muita força e muito poder. Esta figura reforça a ideia da vitória do Amor, da vitória da missão e transformação de Poliphilo, mas que depende da sua persistência e vontade perante as tentações que enfrentará no seu caminho.

Acima da arquitrave ficava o zoóforo (friso decorado com animais ou figuras humanas) no meio do qual se fixava uma placa de metal com um epigrama em elegantes maiúsculas de Grego, que diziam:

“Á ABENÇOADA MÃE, A DEUSA VÉNUS, E AO SEU FILHO, AMOR, BACO E DEMÉTER DERAM DE SI PRÓPRIOS.”

Os dois lados da placa eram seguros por dois putti, também de metal, colocados contra um bloco de pedra azul.

O epigrama esclarece a quem o Templo-Pirâmide é dedicado: Vénus e Cupido, o Amor, e afirma o seu Portal como elemento chave na viagem de Poliphilo. Agora, surge a protecção de duas das mais importantes divindades da mitologia: Baco  e Deméter ,que revelam os aspectos mais terrenos ou perigosos do Amor, apresentando a Poliphilo os medos, indecisões, mágoas e contrariedades que o significado mais íntimo destas divindades encerra, e que o herói deverá enfrentar sob a sua protecção.

Baco era o deus do vinho, das festas, do prazer, do pão e mais amplamente da Natureza, mas também o que concede o mistério da vida eterna, o deus do êxtase espiritual enquanto Dionísio para os gregos. O seu culto foi muito difundido no império romano, onde eram realizados  festivais  em sua homenagem, que eram básicamente festas da primavera e do vinho.

Deméter era a deusa grega  (Ceres para os romanos) das colheitas, mas também do Amor maternal (episódio do Rapto da sua filha Perséfone/Proserpina) a mais antiga e também a mais venerada deusa em toda a Grécia, o seu culto estava estritamente vinculado ao ciclo da terra. Deméter instituiu os chamados Mistérios de Elêusis , rituais secretos em que se agradeciam a fecundidade da terra e as colheitas, e inúmeras festas eram celebradas em sua homenagem, todas elas realizadas de acordo com as estações do ano, uma vez que estavam intimamente ligadas ao plantio, colheita do trigo e ao trabalho decorrente disso. De entre as mais importantes festas destacam-se as Haloas, festa dedicada também a Dionísio . De acordo com o mito do Rapto de Perséfone, a sua filha, Deméter/Ceres representa a experiência da maternidade, não só a gestação física, mas a experiência da Grande Mãe, da descoberta do corpo como algo precioso e valioso que requer muita atenção. Significa os prazeres simples da vida, a consciencialização de que somos parte da natureza. Ceres representa uma sabedoria não racional, que vem da natureza, da capacidade de esperar até que as coisas estejam maduras para agir. Ela também representa a aceitação das mudanças e separações, inclusive aquelas que envolvem muita dor.

No friso mesmo acima das colunas de pórfiro, estavam gravados motivos de couraças militares da antiguidade, escudos, elmos, archotes, lanças, machados, aljavas e dardos e outras armas de guerra, (lembrando que também o Amor é um combate).

Poliphilo repara depois na imponente cornija que remata o friso, e aproveita para estabelecer uma comparação entre o corpo humano e a arquitectura, pois tal como o primeiro, quando uma qualidade está discordante de outra, a doença aparece (pois o bem- estar consiste na harmonia do todo, e quando as partes não estão distribuídas nos seus lugares próprios, vem a enfermidade) assim um edifício não é menos dissonante quando lhe falta a harmonia e proporção. Os modernos ignorantes confundem estes factos, nada sabendo sobre a organização espacial. Mas o nosso engenhoso mestre compara um edifício ao corpo humano com partes bem proporcionadas e vestido com decoro.

Acima então da cornija encontravam-se quatro painéis quadrados salientes, e um quinto semicircular ao centro com um baixo-relevo de uma Ninfa segurando dois archotes: o da esquerda já apagado e apontando para o chão, e o direito aceso, erguido para o sol.

Os painéis quadrados tinham gravadas várias cenas da mitologia: todas têm em comum episódios relacionados com Apolo /Hélios, e foram contados nas “Metamorfoses” do poeta latino Ovídio. Figura complexa e enigmática, que transmitia aos homens os segredos da vida e da morte, Apolo foi o deus mais venerado no panteão grego depois de Zeus, o pai dos céus. O poder de Apolo exercia-se em todos os âmbitos da natureza e do homem.  Além de ser por excelência o deus dos oráculos e fundador de importantes cidades, tinha poder sobre a morte, tanto para enviá-la como para afastá-la, e Asclépio (o Esculápio romano), o deus da medicina, era seu filho. Considerado também o “Condutor das Musas”, tornou-se deus da música. A identificação de Apolo com o Sol – daí ser chamado também Febo (brilhante) – e o ciclo das estações do ano constituía, no entanto, a sua mais importante caracterização. Apolo representa a harmonia, a moderação, a ordem e a razão, em contraste complementar a Dionísio, o deus do êxtase e da desordem.

 Nestes mitos amorosos Apolo nunca tem sorte: teve muitos amores, e praticamente nenhum foi bem sucedido. Apesar de sua divindade e beleza, era sistematicamente recusado tanto por divindades como por mortais. Conta-se que isto se deve ao facto de ele se gabar de ser o melhor arqueiro entre os deuses, o que fez com que Cupido sentisse inveja e lhe acertasse com uma flecha que faria com que o seu amor fosse sempre afastado ou contrariado. Assim, as cenas representadas falam-nos dos obstáculos ao Amor, do Amor não correspondido, contrariado ou até amaldiçoado, que nunca pode depender apenas da vontade e desejo de uma só pessoa (Apolo/Poliphilo). Todas as personagens centrais acabam por se  transformar (metamorfosear) em consequência da acção de Apolo, em espécies vegetais do mundo natural.

O painel situado mais à direita mostrava a invejosa Climéne, ninfa dos Oceanos, cujo cabelo se transformava em folhas, e seguia chorando depois de Apolo que, zangado a desprezara, puxando os quatro corcéis do seu carro solar com não menos velocidade que aquela que tem um homem desejoso de escapar à perseguição de um inimigo mortal.

A cena será uma provável alusão à transformação de Climéne em choupo, junto com as Helíades, quando o seu filho (noutras versões do mito é uma das Helíades, suas irmãs) Faetonte morre ao conduzir o carro de Apolo, seu pai.

O painel seguinte mostrava uma cena pouco habitual do desconsolado Cyparisso erguendo os seus delicados braços ao céu, perante o seu veado (presente do seu amado Apolo) que acabou de abater acidentalmente com uma flecha. Num canto Apolo chora.

Cyparisso gostava de passear pelos bosques na companhia do magnífico veado oferecido por Apolo, que se tinha apaixonado por ele. Mas, por engano, Cyparisso mata o veado e, apercebendo-so do seu erro, fica inconsolável e lamenta-se tanto que Apolo que tinha assistido ao triste fim do animal, transforma o caçador em árvore, dando-lho o seu nome: cipreste,  árvore do luto,   “Sobre ti derramarei lágrimas” – Tu serás o companheiro da dor e do luto   (Ovídio em “As Metamorfoses”)

O terceiro quadrado apresentava uma bonita escultura de Leicoteia, uma princesa que amava Apolo, impiedosamente morta pelo seu pai, que lentamente viu a sua pele branca transformar-se numa suave casca de árvore, agitando as suas folhas e os seus ramos pendurados.

Conforme relatam as “Metamorfoses” Vénus, a deusa do amor, detestava Apolo, o Sol, pois este deus que tudo vê tinha revelado ao mundo as suas inúmeras infidelidades. Decidida a vingar-se, ela abrasou o coração de Hélios com uma avassaladora paixão pela princesa e fez com que a mesma lhe correspondesse. Vénus acreditava que quando o Sol sentisse a força do amor, se tornaria mais compreensivo e menos indiscreto. Mas Leucotéia estava prometida em casamento ao soberano de um reino vizinho. Quando seu pai descobriu o romance ficou furioso e, num acesso de raiva, jogou a infeliz num abismo. Na alvorada do dia seguinte, o Sol despontou e saiu em busca da amada para acariciá-la com os seus raios, mas já era tarde demais: Leucotéia estava morta.. Desesperado, Hélios cobriu o corpo da jovem com um néctar divino e disse, “Apesar de morta, tu subirás aos céus”. Na mesma hora ela transformou-se numa árvore, da qual brotava uma resina aromática que inebriou deuses e homens, dando origem ao incenso.

A desafortunada Dafne aparece no quarto painel, quando ao render-se aos desejos do deus de Delos (Apolo) se transforma numa àrvore eterna e sagrada, o loureiro.

 O mito de Apolo e Dafne é dos mais populares da mitologia greco-romana, e contém a explicação para o carácter sagrado do loureiro no culto de Apolo. Crê-se que alguns sacerdotes mastigavam loureiro para dizerem as profecias, outros usavam ramos de loureiro para aspergir o templo na purificação, ou para purificar a água com o fogo. As coroas de louro eram muitas vezes oferecidas a alguém que tinha conseguido algo extraordinário, superando a si mesmo, na procura da aretê, o ideal grego simbolizado por este jovem deus.

Acima desta série sobre Apolo ficava uma cornija rendilhada saliente, com motivos de óvulos, raios ou dardos, e depois folhagens, nichos e outras imagens, tudo maravilhosamente esculpido.

Poliphilo toma agora atenção ao frontão triangular que coroa o portal. Verifica que todas as cornijas abaixo dele foram repetidas a toda a volta do frontão. Avista a imagem de duas Scyla, seres semi-humanos, cuja parte inferior do corpo com a forma de peixe, se distribui nos ângulos de ambos os lados na parte superior da cimalha (moldura superior) da cornija, terminando em escamosas barbatanas.Pareciam duas donzelas, mas dos seus ombros soltavam-se asas de harpia. Seguravam uma grinalda, que no seu interior mostrava a representação de uma cena de ninfas.

O nome de Scylla ou Cila é referida na Odisseia e nas Metamorfoses, para duas figuras e duas histórias diferentes, mas que têm em comum,  a transformação monstruosa sofrida pela divindade/princesa em consequência de um Amor obsessivo e condicionado pela beleza e o ciúme.

A grinalda continha a representação de uma cabra amamentando uma criança, ajudada por uma ninfa. Por baixo a inscrição: “AMALTHEA”. Outra ninfa estava de pé, à frente da cabeça do animal, e com os seus braços impedia-o de se mexer.

Uma terceira ninfa situava-se no centro da cena, segurando um ramo com uma mão, e na outra tinha uma taça antiga. A seus pés a inscrição “MELISSA”. Mais duas ninfas, colocadas por entre as anteriores, mostravam movimentos de dança.

A cena deverá ser uma alusão ao mito da cabra Amalthea, ou também ninfa Amalthea, filha de Melisso de Creta e irmã da ninfa Melissa, tendo ambas acolhido Júpiter. A cabra teria alimentado com o seu leite o deus Júpiter quando criança e este, ao brincar com ela, teria quebrado um dos seus chifres. Por gratidão Júpiter terá transformado este chifre na Cornucópia: na mitologia era um vaso em forma de chifre, com frutas e flores que dele saíam em abundância e expressa um antigo símbolo da fertilidade, riqueza e abundância. O seu interior simboliza o útero – representado assim a Deusa – quando cheio de alimentos que simbolizem a generosidade da terra fértil, representando o sagrado feminino. Vénus foi  adoptada como figura de deusa mãe, era considerada a mãe do povo romano, por ser a de seu ancestral, Eneas, e antepassado de todos os subsequentes governantes romanos. Na época de Júlio César era adorada como Vênus Genetrix (‘mãe Venus’).

Melissa, foi sacrificada por seu pai aos Deuses, tornando-se assim o primeiro sacrifício da estirpe. O corpo de Melissa fora, então, transformado em abelhas.

 A abelha é um símbolo relacionado com a aplicação, devoção, organização e pureza. É também um símbolo de morte e ressurreição, uma vez que desaparecem no Inverno para reaparecerem na Primavera. Na Grécia a abelha era um símbolo sacerdotal, sendo que as sacerdotisas de Éfeso e Elêusis eram chamadas de abelhas : os gregos associavam o animal à deusa Deméter, que muitas vezes era chamada de “A Mãe Abelha Imaculada”. A Grande Mãe também era conhecida como Abelha Rainha e suas sacerdotisas eram Melissas, as abelhas. A harmonia da colméia também sempre foi considerada como um símbolo da comunidade das almas.  Segundo o mito, “Dionísio trouxe o vinho para alegrar os homens e Vénus/Afrodite trouxe as abelhas de seu reino para Júpiter libar hidromel”. O mel era o alimento de Zeus/Júpiter. As abelhas também foram um atributo/emblema de Cupido.

Assim, o Portal aparece coroado (esta representação figura no frontão triangular) com uma alusão a Júpiter, o deus maior do Olimpo romano (Zeus grego), através do seu alimento (mel/néctar), cujo carácter sagrado e ligado ao sentido do ciclo das estações,  da vida e morte,  reforça a simbologia da entrada e início da viagem espiritual de Poliphilo, com todas as suas provações, até alcançar o Amor redentor, e a sua amada Polia, através da Vénus celestial.

Poliphilo elogia mais esta maravilha esculpida, referindo que nem Fídias ou Policleto haviam realizado obra semelhante. A terminar a descrição Poliphilo observa, no frontispício, duas palavras em grego, escritas em perfeitas letras maiúsculas. Assim era esta maravilhosa composição e excelente arranjo digno de ser visto, neste notável e espectacular portal. Poliphilo lamenta não poder descrever outros aspectos com maior detalhe, mas teme estender-se demasiado nessas descrições e não ter o vocabulário mais adequado. Retoma as comparações da construção dos edifícios com o corpo humano, a propósito da construção do “Portal-Pirâmide” : “pois as regras artísticas derivam cuidadosa e exactamente do corpo humano. Pois tal como o homem, para suportar grandes pesos precisa de ter grandes pés e pernas robustas, também um bem modelado edifício deverá ter fortes pilares na sua base, e depois, como ornamento, as graciosas colunas coríntias e jónicas.” Depois lembra que todas as partes têm uma elegância apropriada, de acordo com a harmonia requerida para o edifício, no qual os materiais preciosos, como os variados tipos de mármores e alabastro, têm um papel de destaque.

Constata então que encontrou nas imediações do Portal diversos vestígios de construções e ornamentos pouco vulgares e curiosos, e observou que muitos deles estavam obstruídos por densas plantas, como a hera, que crescia do chão serpenteando por entre os antigos monumentos. Também avistou diversas estátuas por entre as ruínas representando diferentes estados e atitudes; umas inteiras , outras de pé ainda nos seus pedestais. Viu inúmeros troféus, ornamentos, cornucópias e putti. de tudo isto Poliphilo pôde ajuizar quão fértil teria que ser a mente do arquitecto da Antiguidade. Por isso contemplava com o máximo deleite, prazer e atenção. Mesmo assim Poliphilo não conseguia satisfazer os seus olhos esfomeados e o seu insaciável apetite em olhar mais e mais para as esplêndidas obras da Antiguidade. Não pensava em mais nada, excepto na sua amada Polia, que muitas vezes surgia na sua memória. Mas, apesar de a recordar com certa dor, continuava com a vontade de admirar essas maravilhosas antiguidades.

  portal legendado                                                                                                                                                                               (continua)

 

 

8 comentários leave one →
  1. 03/11/2009 23:46

    Olá, Maria! É muito bom ler sobre isso, espero que continues postando.🙂

    • 05/11/2009 17:54

      Alexandra
      Obrigada pelo incentivo…😉 Vou continuar , mas é um esforço considerável. Esta é uma obra muito rica em significados e alusões mitológicas.

  2. 04/11/2009 16:42

    Marialynce, que mergulho na mitologia greco-romana que você nos trouxe neste post! Uma verdadeira maravilha este Portal. Gostei também da analogia que ele faz entre a harmonia da arquitetura e a do corpo humano. Que viagem!
    Parabéns pelo post e uma boa semana pra você.
    Beijos.

    • 05/11/2009 18:10

      Maria Augusta
      Este é um grande desafio! Já percebeu porque é que tive que arranjar coragem para começar, não?… Este Portal é um verdadeiro tesouro de alusões simbólicas fundamentais para a compreensão da história, mas exigem um conhecimento dos vários mitos, e provávelmente contém outros significados que ainda não descobri. Com o tempo….
      Beijos!

  3. Elton permalink
    21/11/2009 22:10

    Assim como muitos que conhecem o Hypnerotomachia ficam obcecados por ele, eu também fui tragado por esta obsessão, e quero agradecer realmente por esta sua iniciativa e também quero colaborar com o que for preciso para que você termine esta análise desde maravilhoso tomo de conhecimento, então se você precisar de ajuda em alguma coisa que esteja a meu alcance é só me comunicar.
    Muito obrigado

    • 27/11/2009 20:41

      Pode crer que se torna mesmo uma obsessão, é um livro perigoso… Infelizmente não tenho tempo disponível para ir contando a história com a regularidade que gostava, mas devagarinho lá conseguirei… Muito obrigada pelas suas palavras e incentivo! Obrigada também pela sua oferta de ajuda, não esquecerei!

      Abraços e até à próxima!

  4. Marcos Antônio permalink
    06/12/2009 06:38

    Puxa! Meus parabéns!! Iniciativa corajosa, e, ao mesmo tempo, muito generosa.

    Não tenho não como agradecer por sua iniciativa em tornar disponível este material sobre o “Hypnerotomachia Poliphili”.

    Muito obrigado!

    • 06/12/2009 20:20

      Obrigada pela sua visita e comentário. É uma iniciativa que dá mesmo muito trabalho mas também muito gosto. Tento contar a história, com os seus episódios principais e decifrando (algum) do seu simbolismo, é claro com a ajuda de algumas obras que vou pesquisando.
      Cumprimentos e volte sempre!

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