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Hypnerotomachia (4)

11/10/2009

 

No capítulo anterior Poliphilo deparou-se com um imenso “portal-pirâmide”, que longamente contemplou e descreveu, nas suas várias partes.  Agora vai descobrir algumas figuras prodigiosas nas imediações daquele templo…

                                                                           CAPÍTULO IV                                                                               

Poliphilo descreve um edifício colossal

 Poliphilo sente-se extasiado com aquele admirável edifício, os seus sentidos estão deleitados por um excesso de prazer que não tem comparação com nenhuma outra emoção que alguma vez tenha sentido!… Recorda Polia mas rápidamente a sua atenção é desviada para o belo portal da construção. Observa que a ladeá-lo estão duas ordens de colunas, a maioria ainda intactas com os seus capitéis dóricos, outras já arruinadas. Junto a elas ainda sobreviviam algumas árvores ancestrais, como o cipreste, a amoreira e o loureiro selvagem. Poliphilo suspeita que naquele lugar teria havido um hipódromo, um lugar de passeio ou uma avenida com pórticos abertos, ou até um canal temporário.

Nesta praça avista então a prodigiosa estátua de bronze de um cavalo alado (Pégaso) com seis crianças que o tentam montar.
 
cavalo alado

A base era de mármore e as suas faces apresentavam inscrições e baixos-relevos. Nas duas extremidades estão coroas de plantas : na face de frente ao portal folhas de mangerona  (planta dedicada a Afrodite/Vénus, deusa do Amor) e feto, junto com a frase “DEDICATUS DE DEIS AMBIGUIS” , na face oposta, uma coroa de venenosas folhas de acónito e no centro “INFLICITATIS DE EQUUS”. 

base do cavalo

Na face do lado direito estavam gravadas figuras alternadas de homens e mulheres dançando em círculo, mostrando cada uma duas faces: a da frente sorridente, a outra a chorar. Cada homem tinha um braço por baixo de um braço de uma mulher, e outro por cima, e assim por diante, de modo a que a face feliz ficava sempre virada na direcção da face triste da pessoa seguinte. Contavam-se sete figuras de cada sexo, gravadas com grande realismo, e por baixo desta cena a inscrição da palavra TEMPO (TEMPVS).

dança em círculo

A outra face da base do cavalo apresentava uma nova cena : um homem jovem, com traje de guerreiro romano e uma coroa de flores na cabeça,  distribui flores a jovens casais, que outro jovem parece colher para ele.  Aqui também uma inscrição: PERDA  (AMISSIO).

jovem guerreiro

O cavalo alado Pégaso apresenta a Poliphilo  a viagem da alma depois da morte : “simboliza o processo da morte do corpo carnal e do renascimento do homem na eternidade. Este renascimento é condicionado por um esforço… A imortalidade não é dada de graça (…)”  (J.Godwin)

Poliphilo fica impressionado com aquele misterioso artefacto, mas rápidamente a sua atenção é desviada para outra figura não menos surpreendente: um enorme Elefante. Porém, quando se encaminhava para o ver de perto, Poliphilo ouve o que parecia ser um fraco gemido humano, e pára, sem saber exactamente o que fazer. Preocupado, decide então procurar a origem daquele som, atravessando um descampado coberto de ruínas. Quando cuidadosamente se aproximava avistou um extraordinário Colosso jacente de metal :  a descrição de Poliphilo mostra a sua inventiva ingenuidade e a sua fértil imaginação visual mas também o seu desdém pelos feitos menores do seu tempo…

“Este colosso está deitado de costas (…) era de um homem de meia-idade (…) Parecia estar doente (…) e media sessenta passos [300 pés] Com a ajuda do seu cabelo era possível escalar-se para o seu peito, depois alcançar a sua lamentosa boca (…) e assim, movido pela curiosidade, prossegui sem mais delongas pelas escadas abaixo situadas na sua garganta, após o que entrei no estômago, e depois através de intricadas passagens, e com algum terror, nas outras partes das suas vísceras. Depois, oh! Que maravilhosa ideia! Conseguia ver todas as partes internas, como se estivesse num corpo transparente. Além disso, via que todas as partes estavam inscritas com o respectivo nome em três línguas, caldeu, grego e latim. (…) E quando cheguei ao coração, pude ler como os suspiros são gerados pelo Amor, e pude ver o lugar onde o Amor gravemente o fere. Tudo isto me comoveu profundamente, de tal forma que soltei um grande suspiro do fundo do meu coração invocando Polia – e instantâneamente ouvi a máquina inteira ressoar (…) Que objecto era, ultrapassando a melhor das invenções (…) Ó grandes génios do passado! Ó verdadeira idade dourada, onde a Virtude andava de mãos dadas com a Fortuna!”

“Até  à morte é importante cuidar do corpo físico, e é esta a lição que encerra o colosso anatómico (…) A chave para o pensamento de Poliphilo é o seguinte: a melhor maneira de ter acesso à sabedoria de Deus é aquela que abre a mente humana ao conhecimento da natureza e das suas leis. Á medida que o conhecimento se aperfeiçoa, a mente eleva-se à concepção de onde emanou.”  (J.Godwin)

 Ao sair do Colosso, Poliphilo avistou a parte da testa da cabeça de uma figura feminina, visível por entre ruínas, pois o resto do corpo deveria estar soterrado. Pensou que pertenceria a uma estátua semelhante à do Colosso, e voltou ao local anterior. Aí, não muito longe da estátua do grande cavalo de bronze, encontrava-se a do enorme Elefante, esculpido de um bloco de obsidiana (rocha negra vulcânica) levando um obelisco (símbolo da ressureição) às costas.

elefante e obelisco
Por baixo da barriga do animal situava-se um cubo de pedra, que, tal como o obelisco, estava decorado em três das suas faces, com caracteres egípcios. Por sua vez a sela de bronze era decorada com pequenas figuras. Preso à sela pendurava-se um fino ornamento peitoral com uma inscrição em latim: “O CÉREBRO É NA CABEÇA”. Também da cabeça pendia outro ornamento, com  a gravação de letras Gregas e Árabes.

adorno elefante

Na parte de trás da base semicircular deste Elefante, Poliphilo encontrou, escavada, uma pequena escada ascendente com sete degraus, de acesso à superfície daquela base, que logo subiu. Logo avistou uma pequena entrada no bloco quadrangular, que, através de uma espécie de escada de mão, dava passagem ao interior do engenhoso Elefante. Lá dentro uma luz sepulcral dada por um archote que ardia sem se apagar, mas que permitiu a Poliphilo ver um antigo túmulo encimado por uma estátua de um homem nú, em tamanho natural e coroado. Era esculpido em pedra negra, mas os olhos, dentes e unhas eram de prata brilhante. Na mão direita segurava um ceptro e na esquerda um escudo, com inscrições em Hebreu, Grego e Latim.

túmulo 1 Aquela estátua pouco vulgar assustou Poliphilo que, ao afastar-se, logo avistou outra lanterna ardendo, agora na zona da cabeça do animal. Aqui encontrou outro túmulo agora com uma estátua feminina, também coroada e com um escudo, contendo nova inscrição nas mesmas línguas.

túmulo 2

Poliphilo tenta mas não consegue interpretá-las e decide abandonar aquele local que o amedronta, mas esperando poder voltar mais tarde. Deseja agora voltar a contemplar o Portal Triunfal do Templo-Pirâmide.

O Elefante a carregar o Obelisco egípcio é o símbolo da viagem da alma depois da morte, ideia a que o Cavalo Pégaso já tinha aludido. “Mas aqui surgem referências às doutrinas egípcias e herméticas que muito cativaram os humanistas do final do séc. XV. Dentro do grande Elefante Poliphilo descobre os túmulos de um homem e de uma mulher com inscrições que se referem ao seu renascimento. É o renascimento do corpo físico, o corpo no qual se passam as experiências descritas no “Livro Egípcio dos Mortos”.” (E. Kretzulesco/J.Godwin)

Poliphilo ainda não atingiu esse nível, ainda o desconhece e por isso sente medo, mas secretamente deseja alcançá-lo.

Curioso é que foi exactamente duzentos anos depois da publicação da Hypnerotomachia, a 1 de Maio de 1667, que o Papa Alexandre VII consagrou o Elefante-Obelisco de Bernini ( inspirado na gravura ) no antigo lugar de um templo de Ísis, o Iseum, na praça de Santa Maria de Minerva; o pequeno obelisco do séc.Va.C. teria inclusive, pertencido ao templo.

Poliphilo volta finalmente à praça defronte do Portal, e logo lhe chama à atenção uns hieróglifos gravados na base de mármore.

hieróglifos

Depois de muito pensar sobre o seu significado acaba por formular uma interpretação (em Latim):

“EX LABORE DEO NATURAE SACRIFICA LIBERALITER PAULATIM REDUCES ANIMUM DEO SUBIECTUM. FIRMAM CUSTODIAM VITAE TUAE MISERICORDITER GUBERNANDO TENEBIT, INCOLUMEMQUE SERVABIT.”

Não esxite nenhum hieróglifo autêntico na obra, apenas alguns inventados com base no escritor grego Horapollo e em inscrições pseudo-hieroglificas da Roma imperial  (J:Godwin).

Santiago Sebastián, eminente historiador de Arte, na obra “Emblemática e Historia del Arte”, aborda a interpretação dos hieróglifos como os que aparecem na Hypnerotomachia. O autor refere que eram fruto da interpretação fantástica que os Humanistas do Renascimento fizeram da antiga escrita egípcia: eles “traduziam-na” para o latim de um modo literal, mesmo inventando equivalências entre certos signos e os seus termos ou conceitos correspondentes. O autor da Hypnerotomachia actua da mesma forma: primeiro traça os desenhos, depois descreve essas imagens na sua língua e por último faz a sua tradução em latim ou grego. Cada palavra tem o seu desenho correspondente, inventado pelo autor. A coerência da mensagem é estabelecida pelas palavras desenhadas e não pelos desenhos em si, que são um aglomerado heterogéneo de signos.

A inscrição que Poliphilo viu, e interpretou em Latim, traduz-se assim: “Oferece ao Senhor com generosidade as dádivas da natureza que te dá o teu trabalho e assim, pouco a pouco, irás conformar a tua vontade com a de Deus. Ele guardará com firmeza a tua vida, governando-a com misericórdia, e te conservará incólume dos perigos.”

Mas Poliphilo está inquieto e afasta-se do portal, voltando novamente a contemplar a prodigiosa estátua do Cavalo Pégaso, achando-a quase viva! Considera que o Tempo foi generoso perservando, no meio de tanta ruína, as quatro fabulosas construções: o Portal, o Cavalo Pégaso, o Colosso e o Elefante.

Após este momento de contemplação,  Poliphilo decide então dirigir-se, definitivamente, para o Portal. Considera-o maravilhosamente construído, com grande harmonia e arte, e magníficamente decorado com esculturas e variados ornamentos.

Após várias indecisões Poliphilo volta finalmente ao Portal: este elemento afinal vai revelar-se um importante ponto de viragem na história, uma vez que , através dele, Poliphilo vai aceder a um outro novo e decisivo local, a uma nova etapa. Por isso hesita, volta atrás, mas sabe que tem que avançar e enfrentá-lo…

Poliphilo sente-se desejoso de estudar e compreender o fértil intelecto e inteligência aguçada do seu arquitecto, e assim se dispõe a descrever com grande pormenor as suas dimensões, ornamentos e aspectos práticos da sua construção, não deixando de criticar os arquitectos modernos e louvar os clássicos.

Poliphilo descreve as relações de proporções do Portal servindo-se de conceitos retirados de Vitrúvio e de Alberti.

Primeiro são descritos os principais elementos do magnífico Portal, a forma como toda a sólida massa arquitectónica é disposta, tal como pensada pelo seu engenhoso autor, e depois as decorações que são acessórios da construção, e resultado do trabalho de numerosos artífices e homens sem instrução, e esses, diz Poliphilo, são os instrumentos do arquitecto.

                                                                                                                                                                                                  (continua)

  

 

 

2 comentários leave one →
  1. 11/10/2009 17:59

    A história continua fascinante, com todo este simbolismo que você vai traduzindo para nós, com os mistérios da vida e da morte e este onipresente Portal, que se precisa atravessar para continuar avançando. Achei interessante quando ele diz que desvendar os mistérios da natureza é se aproximar de Deus, pois atualmente se pensa que praticar as ciências que justamente executam esta função, nos afasta dele.
    Parabéns pelo post e um grande beijo.

    • 12/10/2009 09:54

      Como pode constatar Maria Augusta,a história vai também ficando mais complexa e cada capítulo mais longo e cheio de simbolismos, mais ainda do que aqueles que vou tentando decifrar.E parece que de cada vez que vou lendo surgem mais coisas.
      É, o facto de se pensar que a ciência nos afasta de Deus também terá a ver com a própria concepção que se tem dele. Se é a imagem do Deus de longas barbas castigador então será mesmo um afastamento. É através destas ideias que se percebe como esta obra revelava um pensamento algo contrário e mesmo herético relativamente à religião da época.Existe aqui a influência da mitologia pagã, dos cultos da natureza, que atraíram muitos intelectuais do renascimento.
      Estes posts estão a dar-me um trabalho danado!…
      Um grande beijo!

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