Skip to content

Excalibur, o filme da terra dos sonhos

30/04/2009

excalibur

Vários filmes, por diferentes motivos, podia aqui referir, mas pensando bem, e porque a participação nesta colectiva do blog Fio-de-Ariadne  pedia apenas um, conclui que poderia destacar como sendo aquele filme o épico fantástico Excalibur.

Foi realmente um filme que me marcou na minha juventude, e agora, ao fazer uma pequena reflexão, posso dizer que foi o filme que melhor me incutiu o gosto pelo mistério, pelo registo histórico e fantástico, pelo místico e mítico, pelo sobrenatural. Vi-o várias vezes na época (anos 80), e posteriormente adquiri-o em video mas ainda não o encontrei em dvd!..

 Foi John Boorman quem realizou em 1981 esta história do Rei Arthur e da sua espada Excalibur , segundo  uma  adaptação do livro de Sir Thomas Malory, de 1485, Le Morte d´Arthur. Criou  um filme de imagens poderosas e sumptuosas, sempre acompanhado de uma magnífica banda sonora, que acentua o seu carácter teatral, onde as batalhas se travam ao som de excertos da Carmina Burana de Carl Orff,  como O Fortuna, ou quando Lancelot vai buscar Guinevere, toca o Prelúdio de Tristão e Isolda e trechos dessa ópera de Richard Wagner são tocados na cena do encontro amoroso.  Além disso, tocam mais dois trechos de óperas de Wagner: o Prelúdio de Parsifal e o Funeral de Siegfried.

Do elenco desta produção conjunta dos Estados Unidos/Inglaterra constam notáveis actores, vários no seu início de carreira ; Nigel Terry: Rei Artur, Helen Mirren:  Morgana, Cherie Lunghi: Rainha Guinevere, Paul Geoffrey: Perceval, Nicol Williamson: Merlin, o Mago, Robert Addie: Mordred, Gabriel Byrne: Uther Pendragon, Patrick Stewart: Leondegrance, Liam Neeson: Gauvain, Nicholas Clay: Lancelot.    

(ver mais da ficha técnica)

 
A história conta que o Rei Uther Pendragon recebeu de Merlin, o Mago, a espada Excalibur – cuja guarda cabe à Dama do Lago –, com a qual ele tem de unificar a terra. Porém, a sua paixão por Ygraine, a esposa do duque da Cornualha, arruína as esperanças de paz que Merlin nutre. O Mago atende ao pedido de Uther, o de oferecer-lhe uma noite com o objeto do seu desejo, mas reclama, em troca, o fruto da sua relação com Ygraine. Ele espera encontrar nesse fruto o Eleito capaz de unificar a terra, ao contrário de Uther, que perdeu a confiança dos seus vassalos. Antes de morrer numa emboscada, Uther crava Excalibur num rochedo. A espada só poderá ser retirada pela mão do Eleito.

Muitos anos depois, Artur, o filho de Uther e de Ygraine, educado pela sua família adoptiva, participa, como escudeiro do irmão, do torneio que deve designar o campeão digno de tentar a prova, que é retirar a espada da pedra. O filho ilegítimo de Uther consegue tirar Excalibur do rochedo e, desse modo, torna-se o novo rei da Grã-Bretanha, destinado a pôr fim a longos anos de guerra. Os senhores da guerra, entretanto, não querem um simples escudeiro como rei, e Artur acaba por se envolver numa batalha, em que é ajudado pelo pai de Guinevere. Artur, graças à sua magnânimidade, consegue criar uma aliança à sua volta, e com o apoio dos seus cavaleiros e de Merlin, o reino volta a se unificar.
 
Alguns anos depois, casa-se com Guinevere e cria a confraria dos Cavaleiros da Távola Redonda. Mas ao conhecer Lancelot, o melhor dos cavaleiros, e que se torna o seu Primeiro Cavaleiro e o seu melhor amigo, põe um final na harmonia, porque Lancelot e Guinevere  apaixonam-se, lutam contra esse amor, mas um dia o consumam . Artur vê os dois nus na floresta e põe Excalibur entre ambos para mostrar-lhes que lá esteve. Sobrevém o caos.
 
Morgana, a filha de Ygraine, com os seus encantos descobre os segredos de Merlin, e consegue seduzir o seu meio-irmão Artur para engendrar um filho incestuoso, Mordred. Com esse filho, ela se subleva contra o Rei, o que acarreta uma era de desastres. Os Cavaleiros da Távola Redonda  lançam-se na busca do cálice do Graal, e Mordred  mata-os, com excepção de Perceval.

 Este acaba por encontrar o Graal e oferece-o a Artur que bebe do cálice, o que lhe devolve a saúde. O Rei reconquista o seu poder que o filho, Mordred, cobiça. Uma batalha épica opõe pai e filho que se matam ao mesmo tempo: Mordred enfiando a lança no corpo de Artur e este enfiando Excalibur naquele. Artur é levado num barco para Avalon e a espada Excalibur volta para a mão da Dama do Lago.    

O filme decorre em 142 minutos, numa encenação dos mitos fundadores da cultura ocidental, através do ciclo das lendas arturianas, desenvolvido na oposição entre a luz do sagrado e a infelicidade profana. Cada personagem é construída como a representação das qualidades do homem: a Sabedoria e simpatia encarnadas em Merlin, a Nobreza, símbolo da Amizade, que é Lancelot, essa constante necessidade em manter a Paz e a Justiça, que é Artur, ou essa Juventude inocente com ânsia de aventura e auto-superação que é Perceval. Mas também é assumida a aceitação das suas debilidades, como a traição que, apesar de tudo, são superadas e redimidas através da Fidelidade e da Nobreza do arrependimento.

Por outro lado aparece a religião, sem credos, sem dogmas, que só é acessível através da comunhão com a Natureza e, sobretudo, com a Sabedoria que cada herói transporta em si e que deve conquistar. Esta Sabedoria mítica é representada pelo mundo mágico de Merlin, que instrui ao homem para que, afinal, quando o momento chegar, fique só e saiba ser um verdadeiro Rei. “Uma Terra, um Rei…”, este é o Segredo do Graal: o homem consciente da sua natureza e do seu lugar no mundo, da sua Sabedoria.  O esquecimento destas palavras provocou a decadência, a pobreza da terra, as enfermidades e a fome das gentes. Somente através do seu despojamento do mundo material, com a sua Esperança, com a sua Fé,  o Homem, simbolizado na figura de Perceval, alcança a sua Sabedoria perdida. E a obscuridade dissipa-se. A estética encenada do filme, porque se trata de uma encenação de arquétipos do mundo e não de retratos psicológicos, e que caracteriza o ambiente sobrenatural que Excalibur requer, também acompanha e reforça a passagem das etapas deste ciclo: os tons sombrios dos rostos e dos ambientes passam a iluminar-se com a posse do Graal e o renascimento da esperança,  veremos em primeiro plano as flores das cerejeiras abrirem-se num instante, e uma chuva de pétalas cair sobre Artur e os Cavaleiros armados quando rumam à batalha final, num dos mais belos momentos do filme.

Na derradeira batalha o Inimigo, simbolizado em Mordred, é derrotado. Desta forma fecha-se um ciclo na Humanidade: a Espada Excalibur volta ao lago, e Artur viaja à Ilha da Imortalidade/Eternidade, ao som da “Marcha Fúnebre de Siegfried” de Wagner. Estas foram as suas derradeiras palavras: “Um dia chegará um Rei e a Espada ressurgirá das Águas”.
Eternamente repete-se o Mito, eternamente volta o Rei Artur e o Mago Merlin, assim como Morgana, Lancelot, Perceval, Guinevere, que representam todos nós na nossa mística/mítica caminhada.     

(adaptado e interpretado a partir de um texto de Francesc Sánchez-Bas)

O filme é longo e cheio de detalhes no seu denso enredo, mas não resisto a partilhar alguns excertos talvez dos mais significativos…

 EXCALIBUR: CENAS INICIAIS

COMO ARTUR SE TORNOU REI

LANCELOT E GUINEVERE

ARTUR PEDE AJUDA A MERLIN

A DESCOBERTA DO GRAAL E A PREPARAÇÃO DA BATALHA FINAL

CENA FINAL COM A MORTE DE ARTUR

16 comentários leave one →
  1. 30/04/2009 16:26

    Você descreveu muito bem toda a magia contida na história do Rei Artur, Excalibur e os cavaleiros da Távola Redonda. Não assisti a este de 1981, mas a um outro há poucos anos atrás, acho que com Sean Connery no papel do rei Artur. É verdade que todas as virtudes e defeitos do ser humano são simbolizados nos personagens, e o “fiel da balança” é Excalibur, a espada mágica. Realmente é fascinante, você escolheu muito bem o tema para esta coletiva.
    Um grande beijo.

    • 30/04/2009 20:27

      Esse filme de que fala é “Lancelot, o primeiro cavaleiro”, de 1995, uma versão menos mística da lenda de Artur. Eu continuo a adorar este filme.
      Um beijo também!

  2. 30/04/2009 19:38

    Filmão. Bela escolha e post completo. Muito obrigada por participar.

    Abraço

  3. 01/05/2009 01:32

    Nossa! Que história bem explicada! Um texto delicioso e a escolha, ótima! Conheci as lendas do Rei Arthur através do filme “As brumas de Avalon” e sou apaixonada por toda essa mística. Parabéns!

    =*

    • 01/05/2009 22:20

      Obrigada pelas suas palavras. Também vi esse filme mas para mim o “Excalibur” tem mais “consistência”, como história e como cinema.
      Abraços!

  4. 01/05/2009 13:38

    Oi esta história me pegou aos 16 anos quando li As Brumas de Avalon, cheguei a faltar aula para continuar a lê-lo.

    Gosto muito do enfoque de Marion Zimmer, autora do livro que não coloca Morgana como alguém má e sim uma pessoa querendo preservar a todo custo suas crenças, mas a evolução é taxativa e ela é derrotada.

    Este filme eu não assisti, mas vou pegar.

    Gostei muito da ideia de colocar várias versões diferentes da história!

    Também estou participando! Um abraço!

    • 01/05/2009 22:30

      No livro de que fala o enfoque é exactamente na figura de Morgana enquanto a grande sacerdotiza da religião da Mãe terra, com todos os aspectos desse culto pagão que prevaleceu e antecedeu a vinda e vitória da religião cristã, que é assinalada na lenda de Artur.
      Obrigada pela visita e irei retribuir.
      Abraços!

  5. José Luís Alves permalink
    03/05/2009 15:12

    Excalibur, hoje ainda um dos meus filmes de sempre. Continuo ver e rever sem me cansar (tinha em VHS, tenho em DVD, e continuarei a comprar uma cópia em qualquer que seja a tecnologia da moda🙂.
    Sou seguidor das lendas arturianas desde que me lembro mas acho que nunca chegámos a falar nisso. Muito se filmou e escreveu mas, na minha opinião, depois da Morte de Artur de Mallory só as Brumas de Avalon na literatura e este filme fizeram verdadeira justiça à lenda. Mas para os interessados no tema, O Rei que Foi e um dia Será de T.H.White é também altamente recomendável. Dois tomos, escritos em épocas diferentes, um finamente irónico (inspirou A Espada era a Lei da Disney) e outro chocantemente cínico dão uma outra perspectiva à história de Artur. O desastre de casting que é o filme com Gere e Connery é, na minha opinião, para esquecer muito depressa.
    A sinopse está excelente, obrigado por me dares vontade de tirar o filme da prateleira mais uma vez.

    • 04/05/2009 22:42

      Olá Zé! Bem aparecido!
      Pois que eu também me lembre nunca comentámos este assunto. Nunca se proporcionou, eram outras situações. Engraçado é depois de tanto tempo ser preciso a net para ficarmos a conhecer este gosto comum! São definitivamente outros tempos…
      Não conheço a obra que referiste, mas confesso que foi A Espada era a Lei da Disney, (em “quadradinhos”!) que primeiro me aguçou a curiosidade sobre o tema…Esse filme, o “Lancelot, o primeiro cavaleiro” é mesmo para esquecer.
      Interessante também é constatar que as lendas arturianas funcionam como mitos ancestrais da cultura ocidental e repetem-se ao longo dos tempos de variadas formas, na arte, na literatura, na criação de novos heróis e mitos, através de múltiplos níveis de significados, mais ou menos profundos, mais sagrados ou mais profanos.
      Infelizmente não pude ver novamente este filme porque (ainda) não o tenho em dvd, mas estive a ver vezes sem conta os trechos no youtube…:(
      Beijinhos e volta sempre!

      • José Luís Alves permalink
        08/05/2009 07:30

        As lendas arturianas realmente não só são apenas herdeiras de mitos antigos e recorrentes: a gesta heróica, a busca da perfeição e a espera do messias, como as redifinem e preparam para uma nova civilização de tal modo que continuam a apaixonar milhões. Ah, e da literatura não podia esquecer o americano Stephen Lawhead e o seu Ciclo Pendragon : Taliesin, Merlin, Artur, Pendragon e Graal. Muito criativo ao sabor do estilo da fantasia de Lawhead. Mas a ler também com prazer. Bjs

  6. 04/05/2009 00:09

    Obrigada pela visita, espero que volte sempre, claro sem raiva!

    A afirmação é justamente para isso, transformar este sentimento em força!

    Bjão!

  7. 04/05/2009 08:33

    Hi, interesting post. I have been thinking about this issue,so thanks for posting. I will definitely be coming back to your site.

    • 04/05/2009 22:50

      Thank you for the visit and opinion. Sorry my english isn’t very good…
      See you next time!

  8. 04/05/2009 10:40

    Olá sou Antonio de São José dos Campos São Paulo
    e navegando Pela internet achei seu blog o que achei muito interessante e instrutivo parabéns e susseço Abraços aguardo uma visita.

    • 04/05/2009 22:53

      Obrigado pelas suas palavras! Aqui vou procurando partilhar ideias interessantes. Irei retribuir com certeza.
      Abraços

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: