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Vasarely: a poesia do Cosmos

21/04/2009

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Embora sendo um dos artistas cuja obra alcançou maior difusão mundial, por via das inúmeras reproduções, em “posters”, capas de livros, discos, etc, e por isso mesmo por muitos considerado um artista “menor” e a sua obra apelidada de fria, calculista, repetitiva, o facto é que Victor Vasarely (1906-1997) considerava os princípios estéticos das suas pinturas como “o equivalente poético do cosmos”. (Magdalena Holzhey, Vasarely, ed. Taschen)

Foi este facto que me despertou (mais) interesse  e me fez decidir a elaborar este post para partilhar esta perspectiva  da obra de Vasarely.

A abordagem racionalista e científica a par da poesia e de um sentido do universal é um dos aspectos mais intrigantes e fascinantes da sua obra. É a partir da década de 1960 que começa a explorar as micro e macro-estruturas do mundo invisível:

“As minhas unidades plásticas: círculos multicoloridos, quadrados, são contra parte das estrelas, átomos, células e moléculas, mas também de grãos de areia, seixos, folhas e flores. Sinto-me muito mais perto da natureza do que qualquer pintor de paisagens; eu confronto-a ao nível da sua estrutura interna, da configuração dos seus elementos.” (M. H. ob.cit.)

vasarely-victor-zebegen-2602613 Zebegen, 1966/7

O seu sistema de “unidades plásticas” (módulo pictórico básico que consistia num quadrado e uma figura geométrica nele gravada) gerava analogias com a física moderna mas alcançava um sentido metafísico: era um símbolo do todo,

“a essência abstracta do belo, a forma primitiva do perceptível”

“Durante estes anos devorei inúmeros livros sobre a teoria da relatividade, a mecânica das ondas, a cibernética e a astrofísica. Uma frase em particular… causou-se-me uma impressão profunda e duradoura :…”Mais que tudo, poder-se-ia ver a matéria, entendida como energia, como uma deformação do espaço…” A física teórica revelou-se-me de repente como nova fonte de inspiração poética. (…) Sustentado por ondas, depressa cheguei ao átomo, depressa cheguei à via Láctea…Não seria possível que o universo fosse de facto apenas uma simples e grande equação?”

Vasarely não pretendia ilustrar com precisão a teoria da relatividade ou o princípio da incerteza, mas antes transmitir com a sua arte o sentimento que tornava compreensível o conhecimento científico que tinha transformado a nossa visão do mundo.

A sua linguagem abstracta e visual com significado existencial encontra tradição  no “Timeu” de Platão, onde as formas geométricas eram descritas como unidades estruturais da ordem cósmica, sendo que a beleza pura e universal apenas seria transmitida através da harmonia das formas e cores elementares.

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Os títulos das suas obras  também evocam essa dimensão universal e um mistério poético. Incluíam termos como “Luz”, “Planeta”, “Espaço”, ou os nomes de constelações e quasares e do vocabulário da microfísica. A série intitulada “CTA” refere-se a sistemas solares distantes, onde Vasarely pretendia “evocar a ideia de uma energia distante e incrível”, numa tentativa de transmitir

“uma correspondência intuitiva para que cada pessoa pudesse sentir-se à vista do universo das estrelas, e por referência com as ciências modernas . Além do mais, elas próprias tinham chegado a um limite:…tinham encontrado por acaso uma muralha de mistérios. Aqui está a razão por que eu tento, nas minhas pinturas, fazer algo de perceptível, fisicamente sensível, que esteja nos limites do inexprimível e também ao nível do conhecimento.”

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Vasarely ousou dar forma poética aos mistérios da ciência moderna. Afinal as suas obras são uma metáfora do esquema universal, com as  descobertas da época, que implicaram uma perda da concepção ordenada do espaço, o avanço tecnológico e a mobilidade.

(Este post foi elaborado a partir da referida obra de Magdalena Holzhey.)

One Comment leave one →
  1. 21/04/2009 06:09

    A combinação da arte com a ciência é sempre muito feliz, pois a ciência tenta sempre dar sua interpretação aos “mistérios” da natureza, que contem tanta beleza. Ele a captou e a transformou em poesia das formas…Gostei especialmente daquela que representa a deformação do espaço e do segundo diaporama, que vai “transformando” uma obra em outra, lembrando o dinamismo do seio da matéria.
    Maravilhoso teu post, parabéns!
    Um grande beijo.

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