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O mosaico da Medusa

09/03/2009

Foi encontrado em Alter do Chão (Portalegre), a antiga Albeterium , um mosaico romano de características únicas na Penísula Ibérica, pelo tema representado e pela própria técnica de desenho e composição das minúsculas tesselas de calcário e pasta vítrea.

Segundo Jorge António, arqueólogo na Câmara Municipal de Alter do Chão,  o mosaico é “único na Península Ibérica” e garantiu que a descoberta tem “extraordinária importância”.

Esta peça arqueológica, que remonta ao século IV, do império romano tardio, foi encontrada há cerca de um ano, mas só agora foi divulgada, mantendo-se durante todo este tempo no “segredos dos deuses”. ver mais

Este mosaico possui 53 metros quadrados, e é formado por uma moldura geométrica e uma impressionante zona figurativa central, que ilustra o momento de um grande poema épico grego, não de Homero mas mais provávelmente de Virgílio,a Eneida, no seu último canto, segundo a investigadora Teresa Caetano. (Ípsilon, 16/02/09) ver mais       

mosaico

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A cena, composta em tesselas de calcário colorido e de pasta vítrea azul, verde e amarela, mostra ao centro Eneias, o herói troiano, com o escudo (?) com a figura da Medusa. De cada lado, e frente a frente, os guerreiros gregos e frígios, definidos pelos respectivos capacetes. Prostado perante o herói está o rei Turno que implora pela sua vida. Representa-se ainda a figura de Vulcano, cuspindo fogo, o génio do Tibre com o jarro vertendo a água do rio.

O poema épico de Virgílio, formado por 12 cantos, foi composto no ano de 19a.C., e está directamente relacionado com as origens divinas e míticas de Roma e dos seus imperadores, estabelendo uma ligação entre os povos da Itália e os gregos. Foi Caio Júlio César Otaviano que, em 23 a.C.,   por razões de legitimação e consolidação do império,  pensou em encomendar a Virgílio uma epopeia mítica que garantisse ao poder imperial uma natureza divina.

 O épico  começa onde a Ilíada de Homero termina – a queda da cidade de Tróia. O herói da obra de Virgílio é Eneias, um troiano que, a pedido da sua ilustre mãe, a própria deusa Vénus, foge, após a destruição da cidade pelos gregos, com o objectivo de erguer uma nova cidade, uma nova Tróia, que será Roma.

Há dois tipos de personagens na Eneida: os Humanos e os Deuses. E há uma espécie de terceira entidade que é a do fatum (Fado, destino) que nem os deuses podem alterar.

Quando o texto começa, a aventura de Eneias já se iniciou (a narrativa começa in media res, isto é, a meio da acção). O herói naufraga ao largo de Cartago  e vai ter com a rainha Dido. Conta-lhe as suas viagens até ao momento em que se encontra. Mas embora seja bem acolhido pela rainha,  Eneias acaba por partir rumo ao seu objectivo inicial, parando a seguir na Sicília.

 Depois de Eneias ter partido da Sicília fez escala em Cumas. Aqui consulta uma sacerdotisa (uma sibila) de Apolo. Ele tem um desejo intenso (em sonhos o seu pai, Anquises, o havia pedido) de falar uma última vez com o seu pai para lhe pedir conselho sobre a viagem. Obtém permissão de descer ao mundo dos mortos (este episódio faz lembrar outras descidas famosas ao mundo dos mortos: o episódio de Orfeu e Eurídice, a nekya de Odisseu, no canto XI da Odisséia). No mundo dos mortos vê vários espectros. Um deles o de Dido que, ladeada por seu primeiro esposo, não lhe responde.

Após muitas peripécias, guiado pelo oráculo, Eneias chega à Itália, à província do Lácio (onde se situará Roma).  O canto VIII começa com o Rio Tibre a falar com Eneias, que lhe diz que deverá fazer uma aliança com Evandro e o seu povo. Eneias e os troianos são recebidos por Evandro com um banquete de consagração a Hércules.  Vénus suplica armas a Vulcano, seu marido, que  forja então o escudo de Eneias. (remetendo-nos para o episódio do escudo de Aquiles, da Ilíada de Homero). É-nos dada a descrição do escudo , onde Eneias aparece como vencedor da batalha de Accio.

Eneias vai ter de combater o rei dos rútulos, Turno, a quem tinha sido prometida a mão de Lavínia, filha de outro líder local, Latino, rei dos latinos. Mas um oráculo aconselhara Latino a aceitar como genro um guerreiro estrangeiro. Eneias conta então com a ajuda de Latino e, protegido com o escudo forjado por Vulcano (onde estão gravados todos os acontecimentos da futura História de Roma), e aconselhado pelo génio do rio Tibre, vence, numa luta corpo a corpo, o rei Turno. E segue-se o momento retratado no mosaico de Alter do Chão : tombado no chão, Turno implora a Eneias pela sua vida.

 Mas Eneias, após um momento de hesitação, trespassa-o com a espada. Desposa Lavínia, e o seu filho Ascânio, neto de Anquises e Vénus, será o avô dos futuros reis de Roma. Eneias é uma personagem que permite dar a Roma uma ascendência mítica, ligada aos gregos e aos povos da Itália, juntando-se assim ao mito da fundação por Rómulo e Remo.

cabeça de Medusa, de Caravaggio

cabeça de Medusa, de Caravaggio

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Interessante também é verificar a representação, no que parece ser o escudo levado por Eneias, da cabeça de Medusa, motivo que centraliza a composição:
 pormenor da cabeça da Medusa
 
 Medusa é uma das três Górgonas, divindades da mitologia grega. Ao contrário de suas irmãs Górgonas, Medusa era mortal . A vida dissoluta das três irmãs,  aborrecia os demais deuses, principalmente a deusa Afrodite. Para castigá-las, Afrodite transformou-as em monstros com serpentes em vez dos seus belos cabelos, presas pontiagudas, mãos de bronze, asas de ouro, e o seu olhar petrificava quem olhasse diretamente nos seus olhos. Temidas pelos homens e pelos deuses, as três habitavam o extremo Ocidente, junto ao país das Hespérides.

Segundo a mitologia dos grandes heróis anteriores à Guerra de Tróia, Perseu, filho de Dánae e de Zeus, foi encarregado pelo rei de Sérifo, Polidectes, de decepar e lhe dar de presente a cabeça da Medusa para, em sua vez, Polidectes oferecer como prenda a Énomao, rei de Pisa, com fim de desposar a sua filha Hipodâmia. Para isso, o herói Perseu encontrou-se com umas certas ninfas africanas que gentilmente lhe ofereceram objectos mágicos para o ajudarem no combate a Medusa, tais como: um alforge,  e um capacete que, uma vez colocado, o convertia numa figura invisível, possibilitando-o de se aproximar de Medusa sem este ser descoberto.

Mas Perseu contou também com a poderosa ajuda dos deuses Hermes e Atena, que vieram em seu auxílio, oferecendo-lhe poderosas armas: Atena deu-lhe um escudo tão bem polido, que se podia  ver o reflexo ao olhar para ele, e Hermes presenteou-o com as  suas sandálias aladas, dois objectos que foram definitivos para a vitória de Perseu.

Então Perseu, guiado pelo reflexo do escudo, mas sem olhar diretamente para a Medusa, derrotou-a cortando a sua cabeça, que ofereceu à deusa Atena. Diz a lenda que, quando a Medusa foi morta, o cavalo alado Pégaso e Crisaor surgiram de seu ventre. Atena passou então a usar no seu escudo a cabeça da Medusa.

Atena é a deusa grega da sabedoria, do ofício, da inteligência e da guerra justa. Era a deusa mais poderosa, ensinou aos homens praticamente todas as actividades, como a caça, a pesca, o uso de arco-e-flecha, costurar (algo que ela fazia como ninguém),dançar, e, como havia saído da mente de Zeus, sua marca é a inteligência. Deu o seu nome à cidade de Atenas e apoiou os gregos na Guerra de Tróia.

Talvez que, ao ser representada a cabeça da Medusa, no suposto escudo de Eneias, se pretendesse exaltar o seu carácter bravo e corajoso, mas igualmente justo e promotor da paz, afinal características que o império romano certamente desejaria promover junto dos povos submissos, de modo a afirmar e consolidar o seu poder, e, simultâneamente a manutenção da paz no seu território…

5 comentários leave one →
  1. 09/03/2009 17:26

    Que legal esta tua descrição detalhada da lenda ligada à cena relacionada a este precioso mosaico que foi encontrado. Não conhecia (ou não lembrava mais) esta parte que ligava as origens de Roma à Grécia e seus heróis. A mitologia grega me fascina, acho interessante que eles atribuiam qualidades e defeitos bem humanos a seus deuses.
    Um beijão.

  2. Soledad permalink
    23/08/2010 09:20

    A história aqui descrita das origens da Medusa não é a mais correcta. De acordo com as versões mais correntes da Mitologia grega, Medusa foi transformada pela deusa Atena e não pela deusa Afrodite. De acordo com o mito, o deus Poseídon violou Medusa no templo de Atena e esta revoltou-se culminando a sua ira na transformação da mulher formosa que era Medusa no monstro acima descrito. Apesar de aceitar que possam existir várias versões sobre o surgimento destes seres mitológicos o facto é que a explicação mais comummente descrita que nos foi deixada pelos próprios gregos foi a que acabei de mencionar.Contudo dou os meus parabéns pelo artigo e pela divulgação desta descoberta.

    • 30/08/2010 22:37

      Obrigada pelo seu apropriado comentário. Afrodite nesta história foi mesmo um lapso!
      Realmente, segundo a versão relatada por Ovídio, a Medusa teria sido originalmente uma bela donzela, sacerdotisa do templo de Atena, que um dia teria cedido às investidas do “Senhor dos Mares”, Posídon, e deitado-se com ele no próprio templo da deusa. Atena então, enfurecida, transformou o belo cabelo da donzela em serpentes, e deixou o seu rosto tão horrível de se contemplar que a mera visão dele transformaria todos os que o olhassem em pedra. Noutras versões Atena sentiu-se tão ultrajada que tomou de Medusa a sua imortalidade, fazendo-a a única mortal entre as górgonas. Significativamente esta associação de Medusa e Atena culmina simbólicamente com a presença da cabeça da Górgona no escudo da Deusa.
      Cumprimentos e até breve.

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