Skip to content

O Terramoto

01/11/2008

Não podia deixar passar este dia sem fazer uma referência a um terrível acontecimento, quase esquecido, que marcou a cidade de Lisboa  (mas também o País e o resto da Europa) e que definitivamente constituiu uma viragem na vida e nas mentalidades : o Terramoto de 1755.

 

Gravura alemã do séc.XVIII  da colecção “Augsburgische Sammlung” exposta no Museu da Cidade

“AUTÊNTICA REPRESENTAÇÃO DO CRUEL TERRAMOTO QUE ATINGIU A REAL CAPITAL E CIDADE  DA RESIDÊNCIA REAL DE LISBOA EM PORTUGAL, QUASE TOTALMENTE DEVASTADA E TRANSFORMADA NUM MONTE DE PEDRAS”

“Tal aconteceu a 1 de Novembro de 1755, dia de Todos-os-Santos, às 10 horas da manhã quando o povo estava quase todo reunido nas igrejas, e um incêndio devastador tornou a derrocada dos palácios e casas ainda mais horrível e muitos 1000 homens encontraram nas casa e nas pedras que caíam na sua sepultura. Os gemidos dos esmagados e o choro das crianças e dos desamparados era tão deplorável que não há pena que o consiga descrever,a maor parte dos edifícios públicos sofreu, o palácio real nº1, a alfândega 2 e a zona de barcos3. De acordo com um provérbio os Portugueses tinham por hábito dizer que Deus daria casa em LIsboa a quem Ele amasse. Entretanto Deus os avisou assim como a todos os homens, através do terramoto, do seu poder e força, que o reconhecessem e fizessem penitência e que levassem  uma vida piedosa que Deus nos quererá dar a todos através da sua Graça.”

O Terramoto de 1755 é considerado o maior dos sismos de que há notícia histórica (in “1755- O grande terramoto de Lisboa”, vol.I; FLAD, ed.Público, 2005). E foi sentido para lá de Lisboa : no Algarve, e depois no sul de Espanha e Marrocos, tal  como nos Açores e na Madeira e por quase toda a Europa.

Segundo a obra referida, “a actividade sísmica nos anos que precederam o grande abalo não foi intensa embora haja referência  a pequenos abalos a partir de 1750 (dia da morte de D.João V)”.

“No dia 1 de Novembro de 1755, sábado, o tempo estava demasiado quente para a época, com uma temperatura de 14ºC e vento a soprar fraco de NE. Às 9h40 deu-se o grande abalo, constituído essencialmente por três fases. (…) o abalo durou cerca de 9 minutos.”

“Para além dos grandes danos causados pelo movimento sísmico (colapso total ou parcial de edifícios), o fogo, originado por vários incêndios que logo eclodiram por toda a baixa de Lisboa, grassou durante seis dias, agravando substancialmente as perdas humanas e materiais.”

“Durante as 24horas que se seguiram ao abalo principal a terra não deixou de tremer num movimento quase contínuo. A primeira réplica, bastante violenta mas de menor duração registou-se às 11horas. Nos primeiros oito dias sentiram-se mais de 28 réplicas, com 250 réplicas nos primeiros 6 meses.”

Gravura alemã do séc.XVIII  da colecção “Augsburgische Sammlung” exposta no Museu da Cidade

Legenda, a começar de cima, da esquerda para a direita:

1- Eis aqui Lisboa, do mundo a mais florente, /Quem pensar podia, que devastada devia ser um dia.

2-Mas ai! Aqui jaz ela já em lastimoso estado, /Pelos Quatro Elementos tão cruelmente esmagada.

3-Os ventos a bramir, as ondas em procela,/A terra a estremecer, as chamas ir rompendo.

4-Aqui se protegem o homem e os animais deste desmoronamento,/E aí jazem, em campo aberto, sem qualquer cobertura.

5- Aqui se procura entre ruínas os besteiros e homens,/E aqueles que aí roubam são pendurados na forca.

6- Aqui Deus de novo traz alívio a Lisboa/Pois através de Inglaterra e Espanha envia auxílio.

“Por volta das 11horas da manhã do 1º de Novembro, as vagas de um tsunami gerado aquando do choque das 9h40 chegaram a Lisboa. As águas do Tejo inicialmente desceram, levando consigo os barcos ancorados junto ao cais. Em seguida, começaram a subir de nível, galgaram as paredes do cais e avançaram pela Baixa dentro uns 300 a 400metros (Terreiro do Paço e ruas próximas das margens). (…) Só às 7horas da manhã de domingo a maré voltou ao seu normal.”

A Lisboa antes e depois do Terramoto

Gravura alemã do séc.XVIII  da colecção “Augsburgische Sammlung” exposta no Museu da Cidade 

É difícil identificar a origem certa do Terramoto de 1755, existem muitos estudos com várias hipóteses, mas é certo que o sismo tem origem numa zona de colisão entre as placas de Alboran, Africana e  Euro-Asiática. 

Também não é simples definir a sua magnitude, uma vez que a primeira instrumentalização desenvolvida para “medir” os sismos só ocorre no final do séc.XIX. No entanto, perante a muita informação sobre a distribuição geográfica dos danos, da duração, dos efeitos devastadores a grandes distâncias, etc, é possível dizer que o Terramoto de 1755 foi um sismo de grande magnitude. Segundo a obra de Francisco Luís Pereira de Sousa (1914), que permanece uma referência no estudo moderno do Terramoto,  apresentou um grau de intensidade de 9 ,ou superior, na escala de Mercalli de 1909 (até 12 graus).

O Terramoto de 1755 apresentou diversas particularidades, que contribuem para a complexidade da sua definição, nomeadamente a sua duração extremamente longa, ou os seus efeitos a grandes distâncias com um padrão de atenuação algo estranho, desviando-se muito da simetria circular normal. Mas também as suas consequências na vida da capital de Portugal, que alteraram por completo a imagem e a vivência da cidade, tal como o próprio modelo de governação do país assente na figura do Marquês de Pombal, colocam o sismo como um marco fundamental na sua história.

(uma análise profunda deste acontecimento foi publicada na obra1755- O grande terramoto de Lisboa”, 4 vol.; FLAD, ed.Público, Lisboa, 2005 , a partir da qual elaborei este post)

6 comentários leave one →
  1. 02/11/2008 14:32

    Marialynce, é a primeira vez que vejo o terremoto de Lisboa descrito em seus detalhes. Não sei se a escala Richter existia na época, mas qual seri

  2. 02/11/2008 14:39

    Desculpe, o comentário anterior “partiu” antes que eu acabasse de escrevê-lo.
    Para completá-lo qual teria sido a intensidade do terremoto na escala Richter?
    Não sabia que ele havia sido acompanhado por um tsunami.
    Teu post é muito informativo, fiquei impressionada com os detalhes.
    Beijos.

  3. 02/11/2008 20:24

    Maria Augusta, a sua questão tão pertinente fez com que completasse o post com mais algumas informações, que ontem não tive tempo para pesquisar, embora também não queria alongar demasiado o post. Espero que tenha respondido à sua dúvida, ou melhor, como realmente a escala de Ritcher não existia (nem outra) é um estudo de 1914 que nos revela o grau provável na escala de Mercalli. Talvez exista já alguma conversão para a de Ritcher, mas nem sei se é possível.
    Beijos!

  4. 03/11/2008 18:21

    Algo extremamente catastrófico para Portugal, sem dúvida alguma. A marialynce, esqueceu-se, inconscientemente, de falar do impacto que este acontecimento teve no pensamento das pessoas que acompanhavam esta tragédia. Mais concretamente: filósofos de toda a Europa. Os trabalhos e todas as obras que foram criadas com referência ao trágico acontecimento também são notáveis. Só me lembro de um em particular: Cândido de Voltarie.

  5. 03/11/2008 19:04

    Rui, eu “esqueci-me” conscientemente, pois o propósito do post era sómente recordar este acontecimento através da descrição dos factos que chegaram até nós. As consequências foram múltiplas e em vários campos, o que seria demasiado para analisar num só post. Tanto na parte que mais me toca, na arte e arquitectura, como no modo como foi noticiado e abordado no resto da Europa, e nas próprias mentalidades que revelaram a construção de um pensamento dito mais iluminado. Por exemplo, as gravuras que coloquei no post, e os textos que as acompanham, ilustram o modo como foi visto na Alemanha. E como bem referiste, na obra de Voltaire esse impacto foi notório, como também revela o seu “Poème sur le désastre de Lisbonne”. Foi sem dúvida um acontecimento que, como referi no post, marcou uma viragem na vida e nas mentalidades do país e do resto da Europa.

Trackbacks

  1. Os números de 2010 « Polia's blog

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: