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Polia e a Arquitectura

15/10/2008

 Na história da “Hypnerotomachia Poliphili”, a magnífica obra publicada pela primeira vez em 1499 em Veneza, é contada a história do sonho do protagonista, Poliphilo, que retrata a sua luta amorosa pela conquista de Polia, e que aliás, foi a inspiração que presidiu à criação deste blog, como já antes referi.

A obra está dividida em dois livros, sendo que o primeiro desenvolve-se em vários capítulos num género de “épico pagão”, recheados de numerosas descrições sobre mitologia clássica, antiguidades romanas, obras de arte e arquitectura, jardins, que transportam a história amorosa de Polia e Poliphilo para um segundo nível de significado.

No primeiro livro Poliphilo ( literalmente, “aquele que ama Polia”, sendo que Polia se identifica como a “Sapiência Divina” , e então Poliphilo é um filósofo, “PoliaePhilos” , enamorou-se pela Sapiência ) descreve o caminho que o conduz até à amada como um percurso em cinco etapas semeadas de obstáculos e provações, em analogia com uma purificação interior inspirada pela imagem da amada. (Voltarei a esta obra para contar essa longa história)

E será este aspecto que torna tão vivo o sonho de Poliphilo, e tão importante enquanto testemunho do seu tempo : o protagonista repetidamente se “distrái” da sua demanda perante os vários monumentos e obras de arquitectura que vai encontrando. Descreve obras de arte do passado clássico (afinal a obsessão do homem do renascimento), aponta detalhes de edifícios da antiguidade, apoiando-se nos tratados de Vitrúvio e de Alberti. Poliphilo está obcecado pela arquitectura romana e vive-a intensamente, tornando o passado presente através da sua glorificação pelo recurso ao mundo do mito.

Mas o tempo e o espaço, a acção, do sonho de Poliphilo, não correspondem ao mundo real : “os monumentos antigos do seu sonho excedem em tamanho e riqueza até as descrições dos autores clássicos, na ilha de Cítera, a natureza floresce em simbiose com a arquitectura (…) trata-se de uma Primavera perpétua, sem princípio nem fim. Nem sequer existe qualquer indicação sobre quando é que o lugar foi planeado ou construído: é um todo acabado e perfeito, para além do tempo e da mutabilidade.” (J. Godwin)

“Poliphilo é o protagonista [o homem moderno] da narração de um itinerário espiritual pelas ruínas do passado.” (E. Kretzulesco)

Na  apresentação abaixo mostro alguns exemplos das arquitecturas vividas por Poliphilo, e Polia, retiradas da arte e literatura antigas e representadas em gravuras sobre madeira.

 

Séculos mais tarde, também outro artista soube transmitir magistralmente essa noção de tempo e espaço perdidos entre o mito e o real : Giorgio de Chirico (1888-1978). Este pintor, expressão máxima da estética metafísica percursora do surrealismo,  utilizou até à exaustão o motivo da arquitectura romana através da representação de múltiplas arcadas que percorrem os seus quadros, em perspectivas deslocadas de praças vazias e enigmáticas.

“As Piazze d’Italia são, em si mesmas, nada menos que labirintos dentro dos quais os sistemas de perspectiva se multiplicam e as leis da natureza se contradizem umas às outras. São quadros cujos espaços possívelmente não podem existir na forma que aparentam e onde espaços e tempos diferentes coexistem em aparente harmonia.” (Magdalena Holzhey)

A linguagem poética de Chirico “provoca um sentimento imediato de inquietação pela combinação incompreensível de vários elementos (…) A justaposição de mundos diferentes – o antigo e o moderno, a memória e o presente, o mito e a realidade – é, por assim dizer, captada num momento intemporal…” (M.H.)

Na apresentação seguinte, é possível observar alguns exemplos dessa linguagem metafísica de Chirico, para a qual o recurso à arquitectura clássica (tal como à mitologia) foi determinante, na criação dos seus espaços intemporais, também eles ruínas do passado numa reflexão do homem moderno.

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