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O Tempo…e o eterno retorno

10/07/2008

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“Buela el Tiempo Irrevocable”, emblema 84 in Teatro Moral de la Vida Humana , Bruxelas, 1672

 A noção de Tempo tem tido diversas conotações ao longo da história, mas afirmou-se sempre como uma questão essencial ao Homem, na determinação e orientação da sua própria existência.

 Através das  teorias da Relatividade  Einstein concebeu o conceito de Espaço-Tempo,  como manifestações de uma mesma identidade. Simplificadamente podemos dizer que, tal como duas cidades de países diferentes existem  mas em diferentes espaços, assim o passado e o futuro existem mas não no mesmo tempo!
 
Por outro lado, Einstein demonstrou que o Tempo é relativo, não existe um Tempo único global: decorre de modo diferente em sítios distintos do universo.  A marcha do Tempo depende da posição e da velocidade do observador.
 
No Homem do séc.XVII a visão do Mundo e da realidade como teatral e simultâneamente transitória, baseava-se exactamente na valorização desses dois axiomas tornados referências essenciais no barroco: o Tempo e o Espaço. Estes são condições fundamentais do estado (corporal) do Homem na Terra, definem a sua finitude, como criatura sujeita ao dever: nascimento, crescimento e morte, o que o afasta da sua possível natureza celeste.
 
Alguns temas iconográficos foram tomados pela arte barroca como reflexo dessa visão do mundo,  como as Quatro Estações, Quatro Partes do Mundo e Quatro Elementos. Deste modo eles partilham a evocação de um cosmos simbólico , onde as várias componentes se encontram relacionadas.
 
O Tempo aparece como o verdadeiro regente da vida humana, e deste modo esta qualifica-se pela aparência e instabilidade. A vida é comparável a uma representação teatral, efémera, onde a realidade é ela própria um cenário transitório. Nesta noção de Tempo e da transitoriedade da vida como uma das linhas condutoras da cosmovisão barroca, estão alicerçados outros temas cultivados na época, como a morte e a dor, a que se junta a “vanitas” e o “carpe diem”, e a exploração do sentimento melancólico.
 
A noção de Tempo encontrou expressão na arte sob várias formas: pela iconografia do tema das Quatro Estações/Quatro Idades do Homem, ou formalizado pela figura do deus Kronos, mas também pelo auxílio de processos de ilusão espacial, e extensivamente, temporal (perspectiva, trompe l’oeil, quadratura), entre outros.
 
Outro aspecto fudamental é a noção de ciclo, que está associada à definição do Tempo como rotação eterna que governa o ritmo da existência humana. Neste sentido determina o funcionamento da “roda da fortuna”, assim como pode tomar a forma de uma dança perpétua. Este tema, aliás, foi por vezes tomado na arte barroca como alegoria dessa incessante rotação do Tempo.
 
As Quatro Estações concebidas assim como um ciclo que se repete num esquema de eterno retorno, definem um ritmo temporal quaternário da vida, acompanhando as suas etapas ou idades da vida humana . É a ordem quaternária da Natureza que estabelece correspondências como estas: cada ponto cardeal, no plano, determina uma estação, um elemento, uma idade, uma fase do sol e outra da lua. Assim temos:
 
ESTE – Primavera, Ar, Infância, Amanhecer, Lua crescente
SUL – Verão, Fogo, Juventude, Meio-dia, Lua cheia
OESTE – Outono, Água, Maturidade, Entardecer, Lua minguante
NORTE – Inverno, Terra, Velhice, Noite, Lua nova
 
No emblema “Buela el tiempo irrevocable” o Tempo é interpretado pela sucessão das Quatro Estações personificadas por quatro figuras que marcham (como o Tempo) compostas com os atributos de cada Estação, e da correspondente Idade ou Etapa da vida. O cortejo caminha acompanhado por um putto alado que segura um relógio de sol, em clara alusão à rápida passagem do Tempo na vida humana. Aparece ainda a lua, com as suas fases em contínua mudança, e a “Ouroboros”, a cobra egípcia que morde a própria cauda, fazendo referência aos ciclos eternos do Tempo.
 
 
 Palácio do Correio-Mor, Loures
 
 
azulejos com as Quatro Idades do Homem Azulejos com as Quatro Idades do Homem
 
 
No Palácio setecentista do Correio-Mór, situado em Loures, de uma majestosa escala, pouco habitual nas casas de campo da época, encontra-se representada em silhar de azulejo na sala central, a alegoria às Quatro Estações através das Quatro Etapas da vida humana, num conjunto iconográfico único, pela coerência semântica e originalidade. Nos azulejos  de ca.1760, cinco painéis representam as fases da vida humana em paralelo com a história de um navio, e num sexto figuram as Quatro Etapas ou Idades da vida.
 
Verão e Primavera

Verão (Juventude) e Primavera (Infância)

 

Outono e Inverno

Inverno (Velhice) e Outono (Maturidade)

 
  
5 comentários leave one →
  1. 10/07/2008 08:12

    Tema fascinante, o tempo é onipresente, não podemos ignorá-lo. Ele é absoluto pois nada podemos fazer para alterar seu ritmo, mas relativo a nível pessoal, pois a cada idade o percebemos de modo diferente, parece que se acelera à medida que ficamos mais velhos.
    Me fascina também a idéia de que se ele existe, é porque existe alguém para medi-lo, para contar, senão como percebê-lo se as estações do ano são cíclicas e se sucedem.
    Quanto à analogia entre as estações do ano e as etapas da vida, acho que é válida para os países temperados e para o hemisfério Norte. Nos países tropicais, não há praticamente diferença visíveis entre as estações do ano e no hemisfério sul o calor aumenta quando se vai na direção do norte.
    Post muito interessante.
    Beijos.

  2. 22/07/2008 00:57

    Gostei bastante da primeira imagem.

  3. 24/07/2008 02:18

    Sim, é muito curiosa esta gravura do séc.XVII pela representação iconográfica das Idades da Vida aludindo às Estações e enquanto expressões alegóricas do Tempo. Técnicamente é de grande qualidade.

    Pouco vulgar é a representação do tema em azulejo, e com grande mestria.

  4. 24/07/2008 02:36

    Exactamente, Maria Augusta, estas considerações sobre o Tempo, e a sua consequente representação iconográfica, têm como referência uma Europa “civilizada”. Traduzem crenças aqui sistematizadas na época.

    Na contagem dos ciclos das estações a agricultura, com os trabalhos do campo próprios de cada altura, terá sido determinante.

    O facto do Tempo existir, não por si próprio mas por aquilo que provoca, e simultâneamente ser algo abstracto, dá mesmo que pensar!
    Bjos

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  1. O estranho caso do Tempo « Polia’s blog

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