Hypnerotomachia (3)
Aproveito para participar na colectiva “VOU DE COLECTIVO”, a propósito do tema“Dormir aqui e amanhecer em outro lugar”com a continuação da história do herói Poliphilo, uma vez que neste 3º capítulo o que acontece exactamente, e que vai iniciar verdadeiramente toda a aventura, é que o protagonista adormece (mais uma vez) num local e vai acordar num outro diferente, um local mágico e desconhecido, cheio de surpresas e mistérios, e que irá condicionar a sua longa caminhada até alcançar o seu objectivo.
Para quem não conhece a história que estou a (tentar) contar ao longo de vários capítulos, e que tem um título bem estranho “Hypnerotomachia Poliphili” (de 1499), poderá ler este post anterior.
Capítulo III
Poliphilo sonha dentro do seu sonho…
No capítulo anterior, Poliphilo tinha conseguido sair de um obscuro bosque ao seguir o som enebriante de uma melodia , deixando mesmo para trás o rio, onde podia ter matado a sede. Exausto, acaba por chegar a um desconhecido mas aprazível lugar, acabando por se deitar debaixo de um frondoso carvalho, onde adormece novamente…
Poliphilo conta que terá adormecido novamente: graças ao seu sono descansado encontrava-se agora num lugar muito mais agradável… (o sonho dentro do sonho)
A partir daqui a acção vai desenvolver-se: Poliphilo inicia a primeira de cinco etapas de provações e aventuras até chegar ao desfecho final.
Poliphilo acorda num lugar com montes arborizados e variadas árvores, como oliveiras e carvalhos. Mas decide retomar a caminhada até chegar a uma nova região, deserta mas amena; aqui as árvores já são diferentes: palmeiras, árvores tropicais, o solo com pequenos tufos de ervas, e onde se dispersam vestígios da arquitectura e escultura da Antiguidade. Um fragmento de uma arquitrave ricamente ornamentada, um capitel coríntio, a base de uma coluna, um torso escultórico.
São vestígios de uma civilização desaparecida, e assinalam o objecto do Amor de Poliphilo ao longo da história : o Amor pela Antiguidade Clássica, tão grata ao homem da Renascença.
Mas de repente, quando Poliphilo contempla as palmeiras, que considera sem comparação com as de outros lugares, avista um lobo esfomeado. Assustado, tenta gritar, mas em vão, a voz não lhe sai! Mas o lobo foge, e, recuperado do susto, Poliphilo avista então, por entre as montanhas, uma incrível estrutura com a forma de uma torre, próxima de um grande edifício que ainda não era totalmente visível, mas que lhe parecia uma obra da Antiguidade. Atraído pela visão, Poliphilo avança na sua direcção, e quanto mais se aproxima mais grandiosa e magnífica lhe parece a construção, e mais desejoso fica de a poder alcançar e admirar.
A simbologia do lobo está associada ao perigo, ao fim ou à passagem, aos obstáculos. Mas o lobo, vivendo na floresta, representa também a ligação do homem com a natureza e a magia, ele desperta o medo de se cruzar a linha entre o conhecido e o desconhecido, representado tanto pela vida e morte como pelo físico e espiritual. É um aviso a Poliphilo dos obstáculos que vai ter que ultrapassar, ao estar prestes a entrar num mundo desconhecido, mágico. Também recorda a sua luta interior : ao longo da viagem vai debater-se entre o apelo sensorial e o espiritual. Mas Poliphilo não tem medo de avançar, e o lobo, guardião do território, deixa-o passar. Logo o nosso herói avista uma grandiosa construção, que é concebida como uma porta de entrada para outro lugar…
Agora já lhe parecia mais um obelisco de extraordinária altura a coroar uma enorme construção de pedra: Poliphilo sente-se cada vez mais deleitado, com uma inexplicável alegria, e pára a sua caminhada para poder admirar com maior prazer a grandiosa e estupenda altura daquela estrutura, que se erguia por entre dois rochedos, e que era um considerável exemplo da Arte da Arquitectura. Poliphilo repara que a construção assim unida às montanhas, formando um vale, impossibilitava que alguém pudesse sair ou entrar excepto através de um portal aberto na sua face central. É uma espécie de ”portal-pirâmide”.
O edifício apresentava-se como um enorme templo piramidal de mármore branco, fazendo lembrar o lendário Mausoléu de Halicarnasso.
É formado pela junção de várias construções e como tal, um edifício híbrido, simbólico da própria arquitectura da Antiguidade: pirâmide, obelisco, portal clássico.
A pirâmide de 1410 degraus e erguendo-se a centenas de pés, conta Poliphilo, é coroada por um maravilhoso obelisco de mármore dedicado ao Sol, cujo nome do seu arquitecto foi gravado em grego, e rematado por uma estátua da deusa Fortuna, “que é instável e astuta devendo ser-lhe feita vénia por quem quer obter os seus favores.” Poliphilo descreve detalhadamente esta figura, que tinha a particularidade de girar fácilmente com o vento, através de um hábil engenho giratório. Sucessivamente perde-se na descrição das medidas do templo e interroga-se como poderá ter sido construído: vai estabelecendo comparações com outros grandiosos monumentos da Antiguidade, referindo nomes de autores e edifícios, mas sempre constatando que nada se assemelhava àquele que agora conhecia naquela estranha terra.
Ao aproximar-se da pirâmide observou que assentava num sólido plinto que não estava preso às montanhas que flanqueavam o vale. A meio do plinto situava-se a cabeça gigante da górgona Medusa , perfeitamente esculpida. A sua boca aberta dava acesso a uma estreita passagem para o interior da pirâmide. Poliphilo entra e avista uma escada em espiral com acesso até à superfície do cubo de pedra que suporta o obelisco. Aí constata que vários canais de abertura, engenhosamente colocados, possibilitavam a iluminação constante do edifício pelo Sol.
Já defronte da pirâmide Poliphilo avista uma magnífica escultura com a representação de uma cruel “Gigantomaquia“, uma batalha dos Gigantes contra os Deuses do Olimpo.
Os monumentos observados por Poliphilo nos primeiros capítulos comtêm diversas imagens míticas, que se relacionam com a história primordial do planeta. Nesta batalha são simbolizados os grandes movimentos telúricos que formaram os continentes. (J. Godwin)
Para lá deste estupendo”portal-pirâmide” erguido entre dois rochedos estende-se o reino da Rainha Eleuterilida, o “Reino da Livre Vontade”. Poliphilo está ainda intrigado com o modo como todo o imenso peso do templo é suportado, e deseja agora explorar os seus subterrâneos através da entrada pelo portal…
(continua)


























Que viagem estupenda, como é bom seguir Poliphilo neste sonho que o leva ao encontro destas civilizações que tanto marcaram nosso pensamento e também de seu desenvolvimento espiritual. Este “capítulo” esta estupendo, merci beaucoup!
Beijos.
Agora começa a ficar bem mais complexo e emocionante! os capítulos tornam-se mais extensos também… (Gostei do françês! Talvez houvesse um cumprimento de resposta mas não sei como…)
Beijos
Um texto rico em idéias com um clima onirico, complexo, bem escrito. Gostei
beijos
Obrigada pelas suas palavras. Espero que possa continuar a seguir a história que o clima vai surpreender!…
Beijos