Excalibur, o filme da terra dos sonhos
Vários filmes, por diferentes motivos, podia aqui referir, mas pensando bem, e porque a participação nesta colectiva do blog Fio-de-Ariadne pedia apenas um, conclui que poderia destacar como sendo aquele filme o épico fantástico Excalibur.
Foi realmente um filme que me marcou na minha juventude, e agora, ao fazer uma pequena reflexão, posso dizer que foi o filme que melhor me incutiu o gosto pelo mistério, pelo registo histórico e fantástico, pelo místico e mítico, pelo sobrenatural. Vi-o várias vezes na época (anos 80), e posteriormente adquiri-o em video mas ainda não o encontrei em dvd!..
Foi John Boorman quem realizou em 1981 esta história do Rei Arthur e da sua espada Excalibur , segundo uma adaptação do livro de Sir Thomas Malory, de 1485, Le Morte d´Arthur. Criou um filme de imagens poderosas e sumptuosas, sempre acompanhado de uma magnífica banda sonora, que acentua o seu carácter teatral, onde as batalhas se travam ao som de excertos da Carmina Burana de Carl Orff, como O Fortuna, ou quando Lancelot vai buscar Guinevere, toca o Prelúdio de Tristão e Isolda e trechos dessa ópera de Richard Wagner são tocados na cena do encontro amoroso. Além disso, tocam mais dois trechos de óperas de Wagner: o Prelúdio de Parsifal e o Funeral de Siegfried.
Do elenco desta produção conjunta dos Estados Unidos/Inglaterra constam notáveis actores, vários no seu início de carreira ; Nigel Terry: Rei Artur, Helen Mirren: Morgana, Cherie Lunghi: Rainha Guinevere, Paul Geoffrey: Perceval, Nicol Williamson: Merlin, o Mago, Robert Addie: Mordred, Gabriel Byrne: Uther Pendragon, Patrick Stewart: Leondegrance, Liam Neeson: Gauvain, Nicholas Clay: Lancelot.
A história conta que o Rei Uther Pendragon recebeu de Merlin, o Mago, a espada Excalibur – cuja guarda cabe à Dama do Lago –, com a qual ele tem de unificar a terra. Porém, a sua paixão por Ygraine, a esposa do duque da Cornualha, arruína as esperanças de paz que Merlin nutre. O Mago atende ao pedido de Uther, o de oferecer-lhe uma noite com o objeto do seu desejo, mas reclama, em troca, o fruto da sua relação com Ygraine. Ele espera encontrar nesse fruto o Eleito capaz de unificar a terra, ao contrário de Uther, que perdeu a confiança dos seus vassalos. Antes de morrer numa emboscada, Uther crava Excalibur num rochedo. A espada só poderá ser retirada pela mão do Eleito.
Este acaba por encontrar o Graal e oferece-o a Artur que bebe do cálice, o que lhe devolve a saúde. O Rei reconquista o seu poder que o filho, Mordred, cobiça. Uma batalha épica opõe pai e filho que se matam ao mesmo tempo: Mordred enfiando a lança no corpo de Artur e este enfiando Excalibur naquele. Artur é levado num barco para Avalon e a espada Excalibur volta para a mão da Dama do Lago.
O filme decorre em 142 minutos, numa encenação dos mitos fundadores da cultura ocidental, através do ciclo das lendas arturianas, desenvolvido na oposição entre a luz do sagrado e a infelicidade profana. Cada personagem é construída como a representação das qualidades do homem: a Sabedoria e simpatia encarnadas em Merlin, a Nobreza, símbolo da Amizade, que é Lancelot, essa constante necessidade em manter a Paz e a Justiça, que é Artur, ou essa Juventude inocente com ânsia de aventura e auto-superação que é Perceval. Mas também é assumida a aceitação das suas debilidades, como a traição que, apesar de tudo, são superadas e redimidas através da Fidelidade e da Nobreza do arrependimento.
Por outro lado aparece a religião, sem credos, sem dogmas, que só é acessível através da comunhão com a Natureza e, sobretudo, com a Sabedoria que cada herói transporta em si e que deve conquistar. Esta Sabedoria mítica é representada pelo mundo mágico de Merlin, que instrui ao homem para que, afinal, quando o momento chegar, fique só e saiba ser um verdadeiro Rei. “Uma Terra, um Rei…”, este é o Segredo do Graal: o homem consciente da sua natureza e do seu lugar no mundo, da sua Sabedoria. O esquecimento destas palavras provocou a decadência, a pobreza da terra, as enfermidades e a fome das gentes. Somente através do seu despojamento do mundo material, com a sua Esperança, com a sua Fé, o Homem, simbolizado na figura de Perceval, alcança a sua Sabedoria perdida. E a obscuridade dissipa-se. A estética encenada do filme, porque se trata de uma encenação de arquétipos do mundo e não de retratos psicológicos, e que caracteriza o ambiente sobrenatural que Excalibur requer, também acompanha e reforça a passagem das etapas deste ciclo: os tons sombrios dos rostos e dos ambientes passam a iluminar-se com a posse do Graal e o renascimento da esperança, veremos em primeiro plano as flores das cerejeiras abrirem-se num instante, e uma chuva de pétalas cair sobre Artur e os Cavaleiros armados quando rumam à batalha final, num dos mais belos momentos do filme.
Na derradeira batalha o Inimigo, simbolizado em Mordred, é derrotado. Desta forma fecha-se um ciclo na Humanidade: a Espada Excalibur volta ao lago, e Artur viaja à Ilha da Imortalidade/Eternidade, ao som da “Marcha Fúnebre de Siegfried” de Wagner. Estas foram as suas derradeiras palavras: “Um dia chegará um Rei e a Espada ressurgirá das Águas”.
Eternamente repete-se o Mito, eternamente volta o Rei Artur e o Mago Merlin, assim como Morgana, Lancelot, Perceval, Guinevere, que representam todos nós na nossa mística/mítica caminhada.
(adaptado e interpretado a partir de um texto de Francesc Sánchez-Bas)
O filme é longo e cheio de detalhes no seu denso enredo, mas não resisto a partilhar alguns excertos talvez dos mais significativos…
EXCALIBUR: CENAS INICIAIS
COMO ARTUR SE TORNOU REI
LANCELOT E GUINEVERE
ARTUR PEDE AJUDA A MERLIN
A DESCOBERTA DO GRAAL E A PREPARAÇÃO DA BATALHA FINAL
CENA FINAL COM A MORTE DE ARTUR
























Você descreveu muito bem toda a magia contida na história do Rei Artur, Excalibur e os cavaleiros da Távola Redonda. Não assisti a este de 1981, mas a um outro há poucos anos atrás, acho que com Sean Connery no papel do rei Artur. É verdade que todas as virtudes e defeitos do ser humano são simbolizados nos personagens, e o “fiel da balança” é Excalibur, a espada mágica. Realmente é fascinante, você escolheu muito bem o tema para esta coletiva.
Um grande beijo.
Esse filme de que fala é “Lancelot, o primeiro cavaleiro”, de 1995, uma versão menos mística da lenda de Artur. Eu continuo a adorar este filme.
Um beijo também!
Filmão. Bela escolha e post completo. Muito obrigada por participar.
Abraço
Obrigada! É sempre bom participar em colectivas interessantes!
Abraços!
Nossa! Que história bem explicada! Um texto delicioso e a escolha, ótima! Conheci as lendas do Rei Arthur através do filme “As brumas de Avalon” e sou apaixonada por toda essa mística. Parabéns!
=*
Obrigada pelas suas palavras. Também vi esse filme mas para mim o “Excalibur” tem mais “consistência”, como história e como cinema.
Abraços!
Oi esta história me pegou aos 16 anos quando li As Brumas de Avalon, cheguei a faltar aula para continuar a lê-lo.
Gosto muito do enfoque de Marion Zimmer, autora do livro que não coloca Morgana como alguém má e sim uma pessoa querendo preservar a todo custo suas crenças, mas a evolução é taxativa e ela é derrotada.
Este filme eu não assisti, mas vou pegar.
Gostei muito da ideia de colocar várias versões diferentes da história!
Também estou participando! Um abraço!
No livro de que fala o enfoque é exactamente na figura de Morgana enquanto a grande sacerdotiza da religião da Mãe terra, com todos os aspectos desse culto pagão que prevaleceu e antecedeu a vinda e vitória da religião cristã, que é assinalada na lenda de Artur.
Obrigada pela visita e irei retribuir.
Abraços!
Excalibur, hoje ainda um dos meus filmes de sempre. Continuo ver e rever sem me cansar (tinha em VHS, tenho em DVD, e continuarei a comprar uma cópia em qualquer que seja a tecnologia da moda
.
Sou seguidor das lendas arturianas desde que me lembro mas acho que nunca chegámos a falar nisso. Muito se filmou e escreveu mas, na minha opinião, depois da Morte de Artur de Mallory só as Brumas de Avalon na literatura e este filme fizeram verdadeira justiça à lenda. Mas para os interessados no tema, O Rei que Foi e um dia Será de T.H.White é também altamente recomendável. Dois tomos, escritos em épocas diferentes, um finamente irónico (inspirou A Espada era a Lei da Disney) e outro chocantemente cínico dão uma outra perspectiva à história de Artur. O desastre de casting que é o filme com Gere e Connery é, na minha opinião, para esquecer muito depressa.
A sinopse está excelente, obrigado por me dares vontade de tirar o filme da prateleira mais uma vez.
Olá Zé! Bem aparecido!
Pois que eu também me lembre nunca comentámos este assunto. Nunca se proporcionou, eram outras situações. Engraçado é depois de tanto tempo ser preciso a net para ficarmos a conhecer este gosto comum! São definitivamente outros tempos…
Não conheço a obra que referiste, mas confesso que foi A Espada era a Lei da Disney, (em “quadradinhos”!) que primeiro me aguçou a curiosidade sobre o tema…Esse filme, o “Lancelot, o primeiro cavaleiro” é mesmo para esquecer.
Interessante também é constatar que as lendas arturianas funcionam como mitos ancestrais da cultura ocidental e repetem-se ao longo dos tempos de variadas formas, na arte, na literatura, na criação de novos heróis e mitos, através de múltiplos níveis de significados, mais ou menos profundos, mais sagrados ou mais profanos.
Infelizmente não pude ver novamente este filme porque (ainda) não o tenho em dvd, mas estive a ver vezes sem conta os trechos no youtube…:(
Beijinhos e volta sempre!
As lendas arturianas realmente não só são apenas herdeiras de mitos antigos e recorrentes: a gesta heróica, a busca da perfeição e a espera do messias, como as redifinem e preparam para uma nova civilização de tal modo que continuam a apaixonar milhões. Ah, e da literatura não podia esquecer o americano Stephen Lawhead e o seu Ciclo Pendragon : Taliesin, Merlin, Artur, Pendragon e Graal. Muito criativo ao sabor do estilo da fantasia de Lawhead. Mas a ler também com prazer. Bjs
Obrigada pela visita, espero que volte sempre, claro sem raiva!
A afirmação é justamente para isso, transformar este sentimento em força!
Bjão!
Hi, interesting post. I have been thinking about this issue,so thanks for posting. I will definitely be coming back to your site.
Thank you for the visit and opinion. Sorry my english isn’t very good…
See you next time!
Olá sou Antonio de São José dos Campos São Paulo
e navegando Pela internet achei seu blog o que achei muito interessante e instrutivo parabéns e susseço Abraços aguardo uma visita.
Obrigado pelas suas palavras! Aqui vou procurando partilhar ideias interessantes. Irei retribuir com certeza.
Abraços