Lugares Mágicos : Mosteiro de Pitões das Júnias
Portugal tem, realmente, muitos “lugares mágicos”, uma designação reveladora que o historiador de arte Paulo Pereira adoptou, para uma colecção de quinze livros sobre o tema, publicados em 2006. Para o investigador “Existem lugares, monumentos, paisagens que se refugiam na nossa memória para de lá nunca saírem e que inevitavelmente revisitamos como se eles procedessem de um património próprio e familiar, convocando ao mesmo tempo toda a estranheza do mundo.”
Foi exactamente a partir do vol. 10 dessa colecção que escrevi este post, sobre este fascinante mosteiro que, finalmente, visitei o verão passado.
Situado no extremo norte do país, na região da Peneda-Gerês, este pequeno mosteiro foi fundado pelos monges Beneditinos e depois concedido aos Cisterciences. Foi edificado numa zona isolada, integrando-se e tomando a própria essência da paisagem, agreste e simultâneamente bucólica, como sua. Mosteiro e natureza envolvente são um só, partilharam a escassez de meios e o que a terra ofereceu. E é essa qualidade que confere uma sensação única a quem tem oportunidade de descobrir este lugar.
Por outro lado, mas de algum modo confirmando o carácter “mágico” deste lugar, a fundação do mosteiro tem por trás uma lenda que nos revela o seu valor simbólico no imaginário cristão medieval.
Resumidamente, e adaptando o relato de Paulo Pereira, “houve há muito tempo um regimento de soldados que não gostava da religião católica e muito menos ainda dos santos. Mas no meio deles havia um que era grande devoto da imagem da Virgem, e, sabendo que os outros planeavam queimá-la, fugiu com ela uma noite, e foi ter até Pitões ao lugar das Marinhas.
Existia aí um grande carvalho onde escondeu a imagem, sobre três galhos, e assim ficou.
Abundavam em Pitões animais silvestres: o porco-bravo e o corço. Um dia um fidalgo espanhol perseguiu numa caça com os seus dois cães, um porco-bravo. O animal aproximou-se do enorme carvalho, que tinha crescido muito mais que as outras árvores. E de repente, os cães param, como por encanto, e esgadanharam a casca do carvalho com grandes latidos. O caçador, perplexo, olhava para o carvalho. E nisto, descobre a imagem da Virgem coroada de luz. O milagre tocou-lhe a alma pelo que mandou edificar no local uma capela, em cujo altar-mor colocou a Santa.
O tempo passou e com ele os perigos da guerra e da fúria anti-religiosa.
O tal soldado, chamado João, veio saber novas da sua Senhora, e foi ele e mais o fidalgo e a Igreja que mandaram construir o mosteiro de Santa Maria das Júnias.
Conta igualmente a lenda que durante a edificação, surgiram duas fontes, uma de azeite e outra de vinho.
João acolheu-se ao mosteiro com outros e aí formaram comunidade religiosa. Deu ao convento o nome de Santa Maria de Júnias.”
Segundo o historiador, esta lenda parece revelar a “sobrevivência de ritos pagãos nesta região incólume. É provável mesmo que se refira, em rigor, a ritos druídicos, tal a soma de simbologia de nítido ascendente proto-histórico que esta lenda reúne:
a) o enorme carvalho de três galhos, árvore sagrada para os Indo-Europeus, na qual foi escondida a imagem da Virgem para depois se revelar;
b) a existência de porcos-selvagens, realidade arcaica das religiões pagãs lusitanas, calaicas e dos Vaceus, uma vez que o porco-montês representa o animal totémico da dignidade ou casta sacerdotal, para o que basta lembrarmo-nos das estátuas em pedra ou berrões, que foram descobertos em maior abundância na zona transmontana, ou das duas estátuas que ladeiam a entrada no estranho recinto murado a sul do mosteiro, por sua vez relacionados com a casta guerreira representada pelo urso (…) e que reaparece no nome da abadia à qual Pitões das Júnias pertencia, Santa Maria da Osseira (ou seja, Santa Maria da Ursa);
c) a cena de caça, como alegoria à purificação espiritual através da domesticação dos instintos;
d) o fenómeno luminoso que acompanha a revelação da imagem de Santa Maria, sinal de uma escolha - juntamente com a cena de caça – de um lugar propostado para a fundação do cenóbio, eco de ritos geomânticos antiquíssimos;
(…) Ainda o nome do lugar, Júnias, parece evocar Juno, ou mais provávelmente, Janus, e portanto um culto pagão ligado aos solstícios do Inverno e do Verão (…). O mosteiro, na realidade, mais não fez senão cristianizar um local já sagrado desde há muito (…). “
Outros lugares mágicos serão dados a descobrir aqui no Polia’s.
























É um lugar magico mesmo, pelo que você nos conta neste post, tanto pela comunhão com a natureza, quanto pela bela lenda envolvendo o esconderijo da imagem, além do paralelismo com os ritos sagrados pagãos. Adorei conhecê-lo, fico contente pois aqui na blogosfera estou descobrindo facetas de Portugal que não nos mostram nos circuitos turísticos.
Beijos.
Ainda bem que gostou, é mesmo um sítio lindo. Realmente existem lugares surpreendentes em Portugal, mesmo desconhecidos para muitos de nós que cá vivemos!
Beijinhos